Não sou, por natureza, optimista. Mas, ainda assim, não deixa de me surpreender, pela negativa, o cenário internacional, cada vez mais sombrio, que actualmente nos rodeia, seja qual for o lado para que nos viremos. E deixo aqui dois exemplos, que se me afiguram especialmente significativos.

Comecemos pela questão climática. De tempos a tempos, o planeta (ou, melhor dizendo, uma parte dele) é assomado por um sobressalto político, económico e cívico, por causa do tema. E, nos últimos doze meses, isso foi visível em dois momentos: em Agosto, por ocasião da publicação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas e em Novembro, aquando do encerramento da COP 26.

Assume-se, nessas circunstâncias, uma atitude comparável aquela que a generalidade das pessoas proclama no início de cada ano: definem-se objectivos firmes e faz-se a promessa que “é desta que as coisas vão mesmo mudar”. Rapidamente se percebe, porém, que se trata, por via de regra, de pias intenções. E a lógica do rame-rame regressa.

Resultado: os dados sobre o aumento da temperatura global são cada vez mais alarmantes e, apesar da pandemia, em 2021 registou-se um adicional aumento das emissões de carbono.

Dito de outra forma: como consequência directa da inacção (ou da timidez da resposta), o clima do planeta está a sofrer alterações em precedentes. E todos os dias constatamos isso.

Para não ir mais longe, basta atentar no que se está a passar em Portugal, com ondas de calor como aquela que nos atingiu na passada semana ou com a situação de seca extrema que atinge praticamente todo o território continental.

Ou no que sucede no Reino Unido, onde foram batidos consecutivamente recordes de temperatura que, pela primeira vez na sua história, ultrapassou os 40.º centigrados.

Ou, ainda, no facto de, na Gronelândia, em apenas três dias terem derretido 18 mil milhões de toneladas de gelo (o suficiente para encher 7,2 milhões de piscinas olímpicas).

Todos sabemos, e há muito tempo, que nada de fundamental mudará, se não formos capazes de inverter, e com sentido de urgência, o modelo de dependência energética dos combustíveis fósseis. Mas isso exige restrições e sacrifícios. A que muitos políticos são avessos, pelas consequências na sua popularidade que daí podem advir. E que muitos cidadãos também encaram com pouco entusiasmo, pelas alterações no seu modo de vida que implicam.

Por seu lado, nos EUA o Supremo Tribunal federal (cuja actual composição constitui um dos mais tóxicos - e prolongados no tempo - passivos da herança deixada por Trump), numa decisão proferida em finais de Junho retirou à Agência de Protecção Ambiental o direito de regular, a nível nacional, as taxas de emissão de CO2.

A tudo isso acresce os efeitos do aventureirismo insano de Putin, que obrigou alguns países a inverter o sentido das políticas ambientais limpas que vinham seguindo, reabrindo centrais nucleares ou retomando a queima de carvão. Mas que também gerou novos constrangimentos a uma economia mundial ainda a tentar recuperar do desafio inédito que a pandemia representou, de que o exemplo mais palpável é a escalada inflacionista.

E este último aspecto permite-nos, também, fazer a passagem para um segundo domínio – o da política - em que as perspectivas não são nada animadoras (bem pelo contrário).

Nos Estados Unidos, o desencanto com as políticas do Presidente Biden pré-anuncia a hipótese de uma maioria republicana nas “midterm elections” para o Congresso, a terem lugar no próximo mês de Novembro. E eu, que nunca esperei dizê-lo, desejo firmemente que isso não aconteça. Porque o actual Partido Republicano, radicalizado e adepto das teorias da conspiração, renega por completo os valores e princípios que tradicionalmente o caracterizaram.

Pior do que isso, porém, é a hipótese de uma nova candidatura de Trump ter sucesso, recolocando na Casa Branca alguém para quem os interesses do seu País e do Mundo são irrelevantes face aos seus desígnios e ambições pessoais.

Em França, a falta de jeito de Macron conduziu o espaço político moderado a um resultado inaudito nas eleições legislativas e ao crescimento do populismo à esquerda e à direita (qual deles o pior). E, como já escrevi nesta coluna, abre portas a um possível sucesso de Marine Le Pen nas presidenciais de 2027.

Em Itália, a “politiquice” tradicional regressou em força e no pior momento possível, conduzindo à demissão de Mário Draghi e à convocação de eleições antecipadas para o Parlamento. E, de acordo com as sondagens, a vitória da Le Pen transalpina – Giorgia Meloni – e a constituição de um governo extremista, com o apoio de Silvio Berlusconi e de Matteo Salvini, constitui uma eventualidade nada descartável.

A acontecer, isso seria sempre mau. Mas, se pensarmos que a economia italiana é a terceira maior da União Europeia (só atrás da alemã e da francesa), facilmente antevemos as potenciais consequências devastadoras desse quadro. E para já não falar no que pode representar a ascensão ao poder de forças políticas hostis ao modelo da construção europeia.

Tudo visto – e muito mais se poderia dizer, mas não caberia neste espaço – afigura-se que nos encaminhamos, infelizmente, para uma conjugação de factores negativos que poderíamos descrever como uma tempestade perfeita. Porque há demasiadas coisas a correr mal ao mesmo tempo. E porque não se vislumbra capacidade, ou vontade, para inverter este estado de coisas.

QOSHE - Demasiadas coisas a correr mal - José Matos Correia
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Demasiadas coisas a correr mal

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27.07.2022

Não sou, por natureza, optimista. Mas, ainda assim, não deixa de me surpreender, pela negativa, o cenário internacional, cada vez mais sombrio, que actualmente nos rodeia, seja qual for o lado para que nos viremos. E deixo aqui dois exemplos, que se me afiguram especialmente significativos.

Comecemos pela questão climática. De tempos a tempos, o planeta (ou, melhor dizendo, uma parte dele) é assomado por um sobressalto político, económico e cívico, por causa do tema. E, nos últimos doze meses, isso foi visível em dois momentos: em Agosto, por ocasião da publicação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas e em Novembro, aquando do encerramento da COP 26.

Assume-se, nessas circunstâncias, uma atitude comparável aquela que a generalidade das pessoas proclama no início de cada ano: definem-se objectivos firmes e faz-se a promessa que “é desta que as coisas vão mesmo mudar”. Rapidamente se percebe, porém, que se trata, por via de regra, de pias intenções. E a lógica do rame-rame regressa.

Resultado: os dados sobre o aumento da temperatura global são cada vez mais alarmantes e, apesar da pandemia, em 2021 registou-se um adicional aumento das emissões de carbono.

Dito de outra forma: como consequência directa da inacção (ou da timidez da resposta), o clima do planeta está a sofrer alterações em precedentes. E todos........

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