A propósito da questão do Aeroporto de Lisboa, num só dia o Ministro Pedro Nuno Santos conseguiu a façanha de ignorar o Primeiro-Ministro, de destratar o líder eleito do PSD e de desdenhar o Presidente da República. É obra!

Ignorou o Primeiro-Ministro, quando anunciou uma decisão que este desconhecia e que, de acordo com as suas declarações públicas, só deveria ser tomada após um processo de diálogo com o maior partido da oposição e a adequada informação a Marcelo Rebelo de Sousa.

Destratou Luís Montenegro, quando o acusou de se ter posto fora do processo, sem se saber como nem porquê.

E desdenhou o Presidente da República, dizendo que, apesar de ter com ele uma boa relação, não tinha de lhe dar conta de todas as decisões que, enquanto Ministro, tomava. Como se esta fosse uma decisão qualquer…

No dia seguinte, e num gesto raro na nossa história política, António Costa fez saber publicamente que havia ordenado a revogação do despacho sobre o Aeroporto. E Pedro Nuno Santos, em conferência de imprensa, lamentou “as falhas” e assumiu a responsabilidade pelos “erros de comunicação e articulação”.

Ora vamos lá a ver se nos entendemos. Segundo o dicionário de língua portuguesa, um erro é aquilo que resulta de uma má compreensão ou de análise deficiente de um facto ou de um assunto. Sucede que a linha de actuação definida por António Costa era de tal modo clara, que nem o mais distraído dos políticos podia escudar-se numa suposta dificuldade de interpretação... Quanto mais o ministro responsável pela pasta!

Por outro lado, assumir a responsabilidade não pode, em política, traduzir-se em meia dúzia de palavras de desculpa. Tem de significar a sujeição às consequências decorrentes da má conduta adoptada. Consequências essas que, evidentemente, haverão de ser proporcionais à dimensão desta.

Compreensivelmente, o País ficou à espera que Pedro Nuno Santos abandonasse o seu cargo. Fosse por iniciativa própria, fosse por decisão do chefe do Governo. Em vão, porque António Costa se limitou a dizer que o erro cometido, apesar de grave, havia sido assumido com humildade e prontamente corrigido…

Episódios com contornos similares já ocorreram no passado. Lembre-se, por exemplo, o caso do “erro de percepção mútuo” invocado pelo Ministro das Finanças, Mário Centeno, a propósito das condições acordadas com António Domingues a propósito da sua nomeação para Presidente da Caixa Geral de Depósitos. Ou os “equívocos” a que se aludiu quando o Ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, propôs a exoneração ao Almirante Mendes Calado de Chefe do Estado-Maior da Armada, em violação daquilo que tinha sido combinado com Marcelo Rebelo de Sousa.

Em todos os casos, o Primeiro-Ministro, em vez de cortar a direito, optou por contemporizar. E em todos os casos fez mal. Porque a dignidade das instituições do Estado e as regras básicas do jogo democrático têm de ser sempre colocadas à frente das conveniências políticas ou pessoais.

É verdade que os desacordos públicos entre António Costa e Pedro Nuno Santos em questões de substância não são de agora. Relembremos a recusa do Primeiro-Ministro em levar o plano de reestruturação da TAP a discussão na Assembleia da República, que o Ministro das Infraestruturas havia anunciado. A retirada do convite a Miguel Frasquilho para permanecer como Presidente do Conselho de Administração da empresa, que Pedro Nuno Santos já tinha formulado. Ou as declarações deste a elogiar a geringonça e a defender que a solução em que assentava não foi um parêntesis, dias depois do chumbo do Orçamento do Estado e das críticas contundentes que o Primeiro-Ministro fez, por causa disso, ao PCP e ao Bloco de Esquerda.

Aparentemente, porém, António Costa e Pedro Nuno Santos, se têm dificuldade em conviver (politicamente) um com o outro, não podem passar (politicamente) um sem o outro.

O que explicará, então, esta sociedade? Achará Pedro Nuno Santos que as desautorizações de que tem sido alvo são um preço que vale a pena pagar, em nome da sua (legítima) ambição de vir a suceder ao actual Secretário-Geral do Partido Socialista? Será o seu poder ao nível das estruturas partidárias (que manifestamente existe) de tal forma substancial, que António Costa não quer correr o risco decorrente da incompatibilização entre os dois? Ou estará este a seguir a lógica, muito comum nos partidos políticos, de manter os amigos próximo e os inimigos mais próximo ainda?

Seja qual for o motivo – esses ou outros -, creio que ambos estão errados. Pedro Nuno Santos, porque não compreende que a manutenção, a todo o custo, de um cargo no Governo, gera, nestas condições, uma erosão que torna mais difícil atingir o objectivo último que pretende alcançar. António Costa, porque não vislumbra que a sua complacência para com este tipo de atitudes põe em causa a sua autoridade, tanto no interior do Executivo quanto fora dele.

Já sabíamos que o Governo não sabe gerir adequadamente o País. Agora, somos cada vez mais confrontados com a circunstância de o Governo não saber, sequer, administrar-se a si próprio…

QOSHE - Costa & Santos, sociedade política de irresponsabilidade ilimitada - José Matos Correia
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Costa & Santos, sociedade política de irresponsabilidade ilimitada

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06.07.2022

A propósito da questão do Aeroporto de Lisboa, num só dia o Ministro Pedro Nuno Santos conseguiu a façanha de ignorar o Primeiro-Ministro, de destratar o líder eleito do PSD e de desdenhar o Presidente da República. É obra!

Ignorou o Primeiro-Ministro, quando anunciou uma decisão que este desconhecia e que, de acordo com as suas declarações públicas, só deveria ser tomada após um processo de diálogo com o maior partido da oposição e a adequada informação a Marcelo Rebelo de Sousa.

Destratou Luís Montenegro, quando o acusou de se ter posto fora do processo, sem se saber como nem porquê.

E desdenhou o Presidente da República, dizendo que, apesar de ter com ele uma boa relação, não tinha de lhe dar conta de todas as decisões que, enquanto Ministro, tomava. Como se esta fosse uma decisão qualquer…

No dia seguinte, e num gesto raro na nossa história política, António Costa fez saber publicamente que havia ordenado a revogação do despacho sobre o Aeroporto. E Pedro Nuno Santos, em conferência de imprensa, lamentou “as falhas” e assumiu a responsabilidade pelos “erros de comunicação e articulação”.

Ora vamos lá a ver se nos entendemos. Segundo o dicionário de língua portuguesa, um erro é aquilo que resulta de uma má compreensão ou........

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