Como todas as sondagens indicavam, Giorgia Meloni ganhou as eleições. E, se nenhuma daquelas surpresas em que o seu país é pródigo acontecer, será a próxima Primeira-Ministra, chefiando uma coligação integrada, também, pela Liga do Norte de Matteo Salvini e pela Força Itália de Sílvio Berlusconi.

Qualquer que seja o prisma de análise, a vitória que obteve é indiscutível. O seu partido – os Irmãos de Itália – não foi apenas o mais votado. Aumentou em mais de 20% a sua representação relativamente ao anterior sufrágio. Obteve mais dois milhões do que o segundo partido. Afirmou-se claramente como a líder do espaço da direita e da extrema-direita, uma vez que os seus parceiros se ficaram, ambos, na casa dos 8%, registando uma perda de cerca de 5% face às eleições de 2018. Em 2013, na primeira vez que concorreram, os Irmão de Itália obtiveram à roda de 2% dos votos. Decorridos apenas nove anos, Meloni conseguiu multiplicar essa percentagem por 13!

Por toda a Europa, o extremismo de direita rejubilou: Morawiecki na Polónia, Órban na Hungria, Le Pen em França, Abascal em Espanha e, evidentemente, Ventura em Portugal.

Mas, as más notícias eleitorais não vieram apenas de Itália. Porque poucos dias antes, também na Suécia, país conhecido por ser um bastião de tolerância e de moderação, um partido de extrema-direita – os Democratas Suecos – ficou em segundo lugar na votação popular (embora não na representação parlamentar), colocando-se numa posição de “king maker”, uma vez que não parece possível a constituição de um Governo sem o seu apoio (ou, quiçá, a sua directa participação).

Reconheça-se, ainda assim, que o impacto não é o mesmo. Desde logo, porque em Itália a extrema-direita vai ficar ao leme da governação. E porque a Itália é a terceira maior economia da União Europeia e a oitava maior do Mundo.

Compreensivelmente, a expectativa quanto aos próximos desenvolvimentos é enorme. Nos últimos tempos, foi clara a suavização e moderação do discurso de Meloni. Fê-lo por razões meramente tácticas, em ordem a ampliar a sua base de apoio? Ou terá sido uma espécie de banho de realismo “avant la lettre”, consciente de que, uma vez chegada ao poder, muito daquilo que defende é incompatível com as políticas centrais da União Europeia?

A história recente evidencia situações em que o exercício do poder – ou a proximidade dele – retira consequências, na prática, à gritaria antieuropeia. Foi o que ocorreu na Grécia com o Syriza ou em Portugal, embora de modo mais disfarçado, com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista.

Mas irá também Meloni por esse caminho? A resposta é, neste momento, insondável. Em todo o caso, há um factor central que não poderá desvalorizar. É que a Itália é um dos maiores beneficiários do fundo europeu de recuperação, sendo-lhe destinados cerca de cento e noventa mil milhões de euros, sessenta e oito mil milhões dos quais são a fundo perdido.

Mas, se é importante estar atento ao futuro, não menos relevante é olhar para o passado, tentando compreender as razões que conduziram a Itália à presente situação. E essa não é tarefa fácil.

Com efeito, a Itália é um “case study” político muito particular, marcado, desde logo, por uma acentuada instabilidade política.

Desde a aprovação da Constituição, em 1947, o país teve sessenta e quatro governos. No início dos anos noventa do século passado, e como consequência directa da “Operação Mãos Limpas”, entrou-se na II República, marcada na sua génese pela implosão dos partidos tradicionais e por uma profunda reforma do sistema eleitoral.

A instabilidade, porém, permaneceu. Dos sessenta e quatro governos que referi, dezanove correspondem ao período desde 1992. E, paulatinamente, foi crescendo a relevância de partidos anti-sistémicos, como a Liga do Norte, o Movimento Cinco Estrelas e, agora, os Irmãos de Itália. Sendo que a erosão já atingiu alguns deles, que estão longe do fulgor eleitoral que já tiveram.

É manifesta, pois, a intranquilidade que caracteriza a sociedade italiana e a desconfiança desta face aos políticos, como fica evidenciado, igualmente, pelo nível inédito de abstenção registado (cerca de 37%). E tem boas razões para isso. Basta atentar no abismo económico que persiste entre o Norte e o Sul do país, a dívida pública superior a 155% do PIB ou o facto de o PIB per capita (medido em paridade do poder de compra) estar abaixo dos valores de 2010, 2011 ou 2012.

Face a tudo isto, há uma coisa que une a extrema-direita e a extrema-esquerda: a atribuição de culpas às políticas europeias. É um argumento estafado, mas repetido à exaustão. E que pode ser contrariado com uma pergunta simples: como estariam os países membros da União Europeia se não fosse a sua pertença a um espaço de integração com estas características e a solidariedade, incluindo financeira, que ele envolve (e não apenas nos momentos de crise)?

A meu ver, o problema reside num factor bem diferente. E está presente por todo o lado, e não só em Itália. Refiro-me ao modo como os políticos agem. Numa atitude que começou na esquerda, mas a que muitos, no centro e na direita, se renderam, ignora-se os constrangimentos, finge-se que os recursos não são limitados, oferece-se mundos e fundos, promete-se, enfim, “os amanhãs que cantam”. E, como não poderia deixar de ser, muito disso se esfuma, e a conta, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser apresentada.

Custará assim tanto compreender que, se uma política de verdade pode não trazer muitos votos, uma política de ilusão, a prazo, tem ainda efeitos piores? Pelos vistos custa. E, enquanto isso não mudar, as coisas só podem evoluir para pior.

QOSHE - Agora a Itália (e a Suécia...) - José Matos Correia
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Agora a Itália (e a Suécia...)

5 1 5
28.09.2022

Como todas as sondagens indicavam, Giorgia Meloni ganhou as eleições. E, se nenhuma daquelas surpresas em que o seu país é pródigo acontecer, será a próxima Primeira-Ministra, chefiando uma coligação integrada, também, pela Liga do Norte de Matteo Salvini e pela Força Itália de Sílvio Berlusconi.

Qualquer que seja o prisma de análise, a vitória que obteve é indiscutível. O seu partido – os Irmãos de Itália – não foi apenas o mais votado. Aumentou em mais de 20% a sua representação relativamente ao anterior sufrágio. Obteve mais dois milhões do que o segundo partido. Afirmou-se claramente como a líder do espaço da direita e da extrema-direita, uma vez que os seus parceiros se ficaram, ambos, na casa dos 8%, registando uma perda de cerca de 5% face às eleições de 2018. Em 2013, na primeira vez que concorreram, os Irmão de Itália obtiveram à roda de 2% dos votos. Decorridos apenas nove anos, Meloni conseguiu multiplicar essa percentagem por 13!

Por toda a Europa, o extremismo de direita rejubilou: Morawiecki na Polónia, Órban na Hungria, Le Pen em França, Abascal em Espanha e, evidentemente, Ventura em Portugal.

Mas, as más notícias eleitorais não vieram apenas de Itália. Porque poucos dias antes, também na Suécia, país conhecido por ser um bastião de tolerância e de moderação, um partido de extrema-direita – os Democratas Suecos – ficou em segundo lugar na votação popular (embora não........

© Expresso


Get it on Google Play