Em 2015, havia 9 milhões de utentes do SNS com médico de família atribuído. Atualmente, esse número é de 9,1 milhões. À primeira vista, pode parecer uma boa notícia, embora signifique, apenas, um aumento de cem mil em 7 anos.

Sucede que em 2015 o número de utentes sem médico de família era de cerca de novecentos mil e hoje é de 1,3 milhões, fruto do aumento do número de inscrições no SNS. Resumindo: as coisas pioraram, havendo à roda de mais quatrocentas mil pessoas nessa situação.

Note-se que os números que referi não resultam de acusações malévolas de oposições persecutórias ou de estudos distorcidos elaborados por instituições mal-intencionadas. Nada disso. Foram referidos, no Parlamento, pela própria ministra da Saúde.

Na ocasião, pudemos constatar, também, que Marta Temido tenta compensar a sua notória falta de jeito para o cargo recorrendo ao truque clássico de fazer oposição à oposição. E, vai daí, pegou numa frase muito popularizada de um conhecido humorista nacional para dizer, dirigindo-se aquela, “falam, falam, mas não fazem nada”.

Para além da ausência de noção do ridículo, porque quem se especializou em nada fazer de jeito foi a própria, não deixa de ser curiosa a inversão de papéis que estabeleceu. Então é à oposição que compete governar?! Julgava eu que essa era tarefa do Governo, como, aliás, o próprio nome do órgão de soberania em causa indicia…

Entretanto, ficou a saber-se, nos últimos dias, que os hospitais estão a desmarcar consultas e cirurgias, desviando os médicos a elas destinados para as urgências, numa tentativa desesperada para evitar a catadupa de encerramentos que se continuam a registar. É a tática do “tapar a cabeça e destapar os pés”. Exatamente o que tinha sido feito aquando da pandemia. Só que, então, ainda se podia invocar a existência de uma circunstância absolutamente excecional; agora a explicação é, apenas, a incompetência de quem nos dirige.

Mas, afinal, a ministra da Saúde tinha na manga a chave para a resolução de todos os problemas – a reforma do Estatuto do SNS. E, em particular, uma “poção mágica” – a criação de uma administração executiva (e, supõe-se, de uma espécie de CEO).

Mais uma estrutura, portanto. A somar aos centros de saúde. A somar aos hospitais. A somar às administrações regionais de saúde. A somar à Administração Central do Sistema de Saúde, instituto público cuja missão legal é, precisamente, assegurar a gestão dos recursos financeiros e humanos do Ministério da Saúde e do SNS, bem como das instalações e equipamentos do SNS. E, já agora, a somar à ministra e aos secretários de Estado, que, mais do que responsáveis pelo sector da saúde no seu todo (porque desconsideram e desvalorizam os sectores social e privado) são, no essencial, chefes do SNS.

É a lógica mil vezes repetida pelos socialistas que nos (des) governam. Há um problema? Normativiza-se! Regulamenta-se! Criam-se estruturas!

Tudo isto me faz lembrar aquilo que, há não muitos anos, se passava com o combate à fraude e à evasão fiscal. As leis eram feitas em catadupa e os grupos de trabalho que iriam encontrar a solução definitiva multiplicavam-se. Para pouco ou nada. Porque o problema não era legal, mas prático. E não se resolvia com mais regras jurídicas, mas com meios e investimentos adequados. Como, aliás, a realidade se encarregou de confirmar.

A ministra da Saúde tomou posse, pela primeira vez, há cerca de quarenta e cinco meses, mais precisamente em outubro de 2018. Ora, creio, ninguém duvidará que o SNS está hoje em situação pior, em termos de resultados concretos e de resposta às necessidades dos cidadãos, do que quando assumiu essas funções. E não há justificações ou circunstâncias atenuantes que afastem a sua culpa no descalabro que se verifica.

Ainda no Parlamento, Marta Temido afirmou, com pompa e circunstância, que tudo o que falha no SNS é responsabilidade política da ministra. E pediu desculpa por isso.

É uma moda que parece ter pegado neste governo. Erros graves são cometidos? Os cidadãos são prejudicados? As instituições desrespeitadas? Nenhum problema. Pede-se público perdão e “siga a marinha”! Seja na Saúde, com Marta Temido, seja nas infraestruturas, com Pedro Nuno Santos. Tratar-se-á, porventura, da transposição para a política do guião de um conhecido programa transmitido na SIC em meados da década de noventa do século passado?

Mas, tal como Pedro Nuno Santos, Marta Temido insiste em não compreender (ou, o que é pior, em não querer compreender) que a responsabilidade política não é, na sua essência, de natureza subjetiva. Porque, mais do que intenções ou motivações, avalia, objetivamente, resultados. Não cuida tanto de saber aquilo que se tinha em vista, mas o que resultou das ações empreendidas. E envolve, necessariamente, a ideia de que os governantes devem ser politicamente sancionados se governam mal. Não aceitar isso é pôr em causa o próprio conceito de representação política e os deveres que, por natureza, lhe estão associados.

Há pouco mais de vinte anos, numa atitude de notável dignidade, o saudoso Jorge Coelho demitiu-se na sequência da tragédia de Entre-os-Rios, invocando o entendimento de que “a culpa não pode morrer solteira”. E não tinha, manifestamente, que o fazer, porque nada lhe podia ser assacado, por ação ou por omissão, a esse respeito.

Outros, que há muito deviam ter sabido sair pelo seu próprio pé, preferem agarrar-se ao poder a todo o custo. É pena que não tenham aprendido nada com ele.

QOSHE - A ministra da Saúde é um caso perdido - José Matos Correia
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A ministra da Saúde é um caso perdido

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13.07.2022

Em 2015, havia 9 milhões de utentes do SNS com médico de família atribuído. Atualmente, esse número é de 9,1 milhões. À primeira vista, pode parecer uma boa notícia, embora signifique, apenas, um aumento de cem mil em 7 anos.

Sucede que em 2015 o número de utentes sem médico de família era de cerca de novecentos mil e hoje é de 1,3 milhões, fruto do aumento do número de inscrições no SNS. Resumindo: as coisas pioraram, havendo à roda de mais quatrocentas mil pessoas nessa situação.

Note-se que os números que referi não resultam de acusações malévolas de oposições persecutórias ou de estudos distorcidos elaborados por instituições mal-intencionadas. Nada disso. Foram referidos, no Parlamento, pela própria ministra da Saúde.

Na ocasião, pudemos constatar, também, que Marta Temido tenta compensar a sua notória falta de jeito para o cargo recorrendo ao truque clássico de fazer oposição à oposição. E, vai daí, pegou numa frase muito popularizada de um conhecido humorista nacional para dizer, dirigindo-se aquela, “falam, falam, mas não fazem nada”.

Para além da ausência de noção do ridículo, porque quem se especializou em nada fazer de jeito foi a própria, não deixa de ser curiosa a inversão de papéis que estabeleceu. Então é à oposição que compete governar?! Julgava eu que essa era tarefa do Governo, como, aliás, o próprio nome do........

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