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Do cocktail molotov ao desempoeiramento: reinventar a política

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02.04.2026

Num tempo de ruído e desilusão, talvez valha a pena começar pelo óbvio: a política precisa de voltar a fazer sentido.

Nos últimos meses, o espaço público tem sido ocupado por polémicas sucessivas, guerras mediáticas e debates que vivem sobretudo da reacção do que da reflexão. A discussão em torno das questões “trans”, que colocou frente-a-frente João Costa e Paulo Núncio, é apenas um exemplo de um padrão que se repete: temas complexos transformados em trincheiras rápidas, onde poucos procuram compreender e quase todos procuram vencer. Numa democracia madura, o problema não é existirem posições diferentes. O problema é quando deixa de existir um espaço para discutir posições diferentes com seriedade, com tempo e com respeito.

Este ambiente permanente de confronto não é neutro. Vai criando a ideia de que a política é apenas isto: um espaço de conflito constante, de frases rápidas e de posicionamentos imediatos. Um espaço onde é mais importante estar do lado certo da discussão do dia do que construir soluções para os problemas de fundo. E quando a política se transforma num permanente exercício de reacção, perde a capacidade de pensar, de decidir e acima de tudo, de resolver.

Contudo, o sinal mais preocupante não está apenas no ruído. Está na forma como, em alguns casos, o ruído começa a dar lugar à radicalização. Quando o debate político passa a conviver com episódios de violência, como o recente ataque com um cocktail molotov, percebemos que o problema já não é apenas de linguagem ou de estilo. É um problema de degradação do espaço público. A radicalização raramente começa na violência; começa quando deixamos de ver no adversário alguém com quem se discorda e passamos a vê-lo como alguém que não devia sequer ter voz.

Ao mesmo tempo, muitos partidos parecem atravessar uma crise silenciosa de identidade. Ainda recentemente, no Congresso do Partido Socialista, essa dificuldade tornou-se visível: discursos certos, fórmulas conhecidas, mas pouca clareza sobre o que distingue, mobiliza e projecta um partido para o futuro. E este não é um problema de um partido. É um problema de quase todos. A política tornou-se previsível e quando a política se torna previsível, deixa de mobilizar.

É neste contexto que importa olhar com seriedade para o papel das organizações juvenis políticas. Porque talvez o problema não esteja nos jovens. Talvez esteja nas estruturas.

Durante demasiado tempo, muitas organizações juvenis foram sendo vistas, e em alguns casos tornaram-se, extensões formais dos partidos, mais orientadas para a reprodução interna do que para a mobilização externa. Com isso, perderam capacidade de atrair e envolver uma geração que não procura apenas sentido de pertença: procura a utilidade, o impacto e a coerência.

E, no entanto, e curiosamente, quando as organizações se abrem ao território, criam canais de participação, assumem causas concretas e dão responsabilidade a quem participa, a resposta existe. Ainda recentemente, o Expresso assinalava o crescimento da Juventude Popular, precisamente num momento em que a estrutura procurou reorganizar-se, abrir-se mais e afirmar uma intervenção própria. O sinal é claro: quando as estruturas fazem sentido, as pessoas aparecem.

Isso implica repensar o que significa, hoje, participar numa organização juvenil política: não apenas como um espaço de militância, mas como uma plataforma de serviço, de formação cívica e de desenvolvimento pessoal e profissional. Participar não deve ser apenas um exercício de afirmação individual ou de percurso interno, mas uma forma de colocar tempo, capacidade e energia ao serviço da comunidade e do país.

Num espaço político cada vez mais centrado na reacção, as organizações juvenis têm, por isso, uma responsabilidade acrescida: a de não reproduzir esse padrão, mas de o contrariar. Podem, e devem, ser espaços de uma outra forma de fazer política: mais próxima, mais exigente, mais responsável. Espaços onde participar não seja apenas estar, mas fazer. Onde participar tenha consequência.

Desempoeirar a política não pode ser apenas reciclar discursos, chavões ou bandeiras. É necessário devolver exigência às estruturas, abrir espaço à responsabilidade e reconstruir a confiança numa ideia simples: a de que participar vale (sempre) a pena porque pode, mesmo, fazer diferença.


© Expresso