Cocktail Molotov contra bebés. E ninguém parou |
Uma garrafa cheia de gasolina. Quinhentas pessoas em frente ao Parlamento. Mulheres. Crianças. Bebés ao colo.
Um homem de 39 anos aproximou-se e atirou o engenho. Cocktail Molotov. Contra uma manifestação pacífica. Em Lisboa. No sábado passado.
Embateu no chão junto a um grupo de manifestantes. Não deflagrou. Por sorte. Algumas pessoas foram atingidas pelo líquido inflamável. Se o pavio tivesse pegado, estaríamos a contar mortos.
A PSP agiu bem e depressa. Deteve o suspeito no momento. Identificou outros três, ligados a um grupo anarquista, que fugiram do local. A polícia fez o seu trabalho.
O sistema de justiça, não. O homem foi presente a tribunal na segunda-feira. A acusação: detenção de arma proibida. A medida de coacção: apresentações diárias. À noite já estava em casa.
Detenção de arma proibida. Para quem fabricou um engenho incendiário e o atirou contra uma multidão com crianças à porta do Parlamento. Não é pouco. É nada.
A Marcha pela Vida junta pessoas que se declaram contra o aborto e contra a morte medicamente assistida. Podemos discordar de tudo o que defendem. Nada disso autoriza ninguém a atirar-lhes fogo.
Em Lyon, um mês antes, Quentin Deranque, 23 anos, estudante de Matemática, foi espancado até à morte.
Militante de extrema-direita, prestava segurança a um colectivo que protestava contra uma eurodeputada de esquerda. Foi encurralado por pelo menos seis indivíduos mascarados. Pontapeado. Esmurrado. Deixado no chão.
Morreu dois dias depois. Traumatismo craniano irreversível.
Onze detidos. Entre eles, um assessor parlamentar de um deputado da esquerda radical. A Assembleia Nacional fez um minuto de silêncio. A direita acusou a esquerda de ter sangue nas mãos. A esquerda condenou mas não olhou para dentro. O luto virou arma eleitoral. E um rapaz de 23 anos ficou reduzido a argumento de campanha.
Que sociedade é esta em que atiramos cocktails Molotov contra quem não pensa como nós?
Em Portugal, o ataque contra a Marcha pela Vida não abriu telejornais. Não gerou sessões parlamentares. Não provocou minutos de silêncio. Nota de rodapé.
Se alguém tivesse atirado o mesmo engenho contra uma procissão religiosa, contra uma marcha pelo clima, contra uma vigília feminista, o país pararia. Haveria inquéritos parlamentares. Edições especiais. Manifestações de repúdio. E bem.
Então porque não parou agora?
Porque medimos a gravidade da violência pela simpatia que temos pela vítima. Porque decidimos, em silêncio, que certas pessoas merecem mais protecção do que outras. Isso tem um nome. Chama-se o oposto de democracia.
O Estado de Direito não escolhe a quem protege. Protege todos ou não serve para nada.
O Relatório de Segurança Interna já alertou para o agravamento dos extremismos políticos em Portugal. Os sinais estão identificados. O que falta é agir de acordo com eles. Atacar uma manifestação pacífica é agredir um direito fundamental: o direito de manifestação. É violência política. O sistema tem de o qualificar como tal. E tem de o punir como tal.
A Europa está a normalizar isto. A desculpar a violência dos nossos e a condenar apenas a dos outros.
A gasolina não distingue ideologias. O fogo não pergunta em quem votaste.
Na segunda-feira, o homem que atirou a garrafa foi para casa. As mães que estavam ali com os filhos ao colo também foram para casa. Uma dessas casas dorme em silêncio porque não tem nada a temer. A outra dorme em silêncio porque aprendeu que ninguém pára.