Chamemos-lhe Marta. Faz parte de uma espécie em vias de extinção, a pequena proprietária, a pequena empresária, a pequena lojista. Tem uma loja num dos bairros de Lisboa conhecido pelo comércio local. Não é só uma loja, é um espaço de convívio, é um ateliê para jovens, é um pulmão social que permite à rua respirar e ser mais do que um conjunto de estranhos. Só que respirar está difícil, a Marta — como todos os outros lojistas — está assustada, não sabe se vai resistir. Está zangada e com razão. Está zangada com quem criou uma atmosfera de medo (covid) que lhe retirou metade das pessoas das ruas e da loja; “muita gente nunca mais voltou a andar na rua”, diz. Está zangada com o senhorio porque este só pensa em expulsá-la. Para quê? Para ali colocar mais uma sucursal de uma grande cadeia de lojas do capitalismo global ou mais uma loja chinesa cofinanciada pela ditadura chinesa? Ou seja, este bairro lisboeta corre assim o risco de perder mais uma loja única, pessoal e intransmissível que humaniza o visitante e, em consequência, corre o risco de ver nascer a enésima sucursal da marca x ou y. E eu pergunto: assim como é que Lisboa mantém o apelo castiço para os turistas?

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QOSHE - Uma rua vazia - Henrique Raposo
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Uma rua vazia

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30.10.2022

Chamemos-lhe Marta. Faz parte de uma espécie em vias de extinção, a pequena proprietária, a pequena empresária, a pequena lojista. Tem uma loja num dos bairros de Lisboa conhecido pelo comércio local. Não é só uma loja, é um espaço de convívio, é um ateliê para jovens, é um pulmão social que permite à rua respirar e ser mais do que um conjunto de........

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