A tensão entre os países membros da NATO e a China é oficial. Não é guerra, mas já não é convívio. Em Madrid, além de convidar novos membros, a Aliança Atlântica considerou a ascensão da China um “desafio aos (seus) interesses, à (sua) segurança e aos valores (que representa)”. A China respondeu com ironia e promessa de espingardas.

O processo de adesão da Suécia e Finlândia à NATO ocupou, compreensivelmente, quase todo o espaço noticioso sobre a cimeira de Madrid. No entanto, essa não foi a única grande novidade. O facto de os dois países tradicionalmente neutrais considerarem que a sua segurança está melhor garantida dentro do que fora da Aliança diz tudo o que precisamos de saber sobre o que mudou com a invasão russa da Ucrânia. Já não são só os países bálticos e os da Europa Central e de Leste que estiveram sob o domínio soviético que nos avisam da ameaça de Moscovo. Agora, até os que foram neutrais durante da Guerra Fria acham preferível estar dentro. E a Rússia pode não ser a única explicação.

A par das duas novas adesões, a relação com a China é o aspeto mais relevante e, muito provavelmente, mais estruturante do futuro da NATO e dos seus aliados globais.

A União Europeia (UE) tinha dado um importante sinal da transformação em curso quando, num documento estratégico publicado em março de 2019 (antes da pandemia, portanto), considerou a China “simultaneamente um parceiro de cooperação com o qual a UE tem objetivos estreitamente alinhados, um parceiro de negociação com o qual a UE deve encontrar um equilíbrio de interesses, um concorrente económico na corrida da liderança tecnológica e um rival sistémico que promove modelos alternativos de governação”. A formulação adotada pela NATO, agora, é ainda mais clara: desafio aos interesses, segurança e valores dos países membros da NATO. E dos seus aliados, alguns ali presentes.

Para que não restassem dúvidas sobre a transformação em curso, a NATO convidou a Austrália, o Japão, a Nova Zelândia e a República da Coreia para estarem também em Madrid. O sinal não podia ser mais claro. Dos membros do QUAD (o Quadrilateral Security Dialogue, a estrutura de diálogo dos Estados Unidos no Indo-Pacífico), só não estava a Índia. A Rússia é o maior problema que temos, sobretudo na Europa. A China é o grande problema que vamos ter. É o que a NATO e os seus aliados pensam. E já dizem. E a China responde.

Num artigo de opinião publicado no jornal EUOBSERVER, a missão da China junto da União Europeia diz que os países ocidentais é que são uma ameaça à paz. Os que foram potências coloniais e os Estados Unidos (sem os nomear), que têm passado a sua curta História sempre em guerras. Pelo contrário, a China tem uma longa tradição de não agressão militar nem ocupação de países terceiros. E, além disso, na sua perspetiva tem o mérito de não pretender interferir na política interna dos outros países. A ameaça é a NATO, portanto. Daí que o artigo termine com uma resposta supostamente à altura da situação: “Não seremos ingénuos quanto ao Conceito Estratégico da NATO. Há uma conhecida canção chinesa com esta letra: "Para os nossos amigos, temos um bom vinho. Chacais ou lobos, recebemos com espingardas."

O que os movimentos e declarações dos últimos tempos parecem indicar com clareza é que estamos a entrar numa ordem internacional pós-global. A paz pelo comércio já não é o mantra. Mas o mundo ainda não está reorganizado. E não é certo que se organize em torno de blocos monolíticos. O pós-Guerra Fria gerou um mundo multipolar e não é provável que alguns dos países beneficiários desse processo estejam disponíveis para abdicar do seu poder, alinhando-se completamente com um ou outro lado. É neste contexto que temos de pensar em dois temas, para começar: alianças e economia.

Não basta convidar os países mais próximos para uma reunião com a NATO, na Europa. Se o Ocidente, para usar um conceito abrangente, quer contrariar a influência chinesa no mundo, precisa de aliados. Desde logo no Indo-Pacífico. Mas não só. E não se fazem aliados com políticas comerciais protecionistas. Nem sem presença física e investimentos. Isso significa que tanto os Estados Unidos como a União Europeia vão, necessariamente, ter de pensar em novos e mais acordos comerciais, em apoio ao desenvolvimento e em presença militar. Ou não serão influentes.

O outro lado da mesma moeda é que isto não é apenas geopolítico e militar. É a economia, também.

O resultado da dependência energética da Europa em relação à Rússia está à vista. E está a ter consequências na transformação energética do continente. Mas é, além disso, um aviso. A dependência ocidental em relação à China é diferente, mas não é menor. Nuns casos, dependência do investimento chinês. Noutros, dependência das fábricas ou do mercado da China.

O receio de uma situação de conflito que limite o acesso aos microchips produzidos em Taiwan levou a União Europeia a lançar o Chips Act. Resumidamente, uma licença para os países da UE - que queiram e possam - darem auxílios de Estado a investimentos na produção de microchips na Europa.

Independentemente da questão de concorrência que esta decisão implica, e que não é nada irrelevante, há aqui um sinal claro do que está na cabeça dos decisores europeus: depender menos do que é produzido na China (ou que pode ser constrangido pelo regime chinês) e produzir mais na Europa. Esta estratégia tem, porém, vários desafios. A lista do que pode ser tão estratégico que tem de ser produzido na Europa corre o risco de ser ilimitada. E, por consequência, de acabar com muito do comércio internacional e das suas virtudes. Em países terceiros e na Europa. Por outro lado, os milhões de consumidores chineses são demasiado importantes para muitas empresas se desligarem sem consequências. E, no entanto, o sinal está dado.

Além de quem se interessa por política internacional, é melhor que as empresas europeias tomem boa nota do que está a acontecer. Na relação com a Rússia pode estar uma pista para o futuro da relação com a China.

QOSHE - São as armas. E a economia, estúpido - Henrique Burnay
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São as armas. E a economia, estúpido

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05.07.2022

A tensão entre os países membros da NATO e a China é oficial. Não é guerra, mas já não é convívio. Em Madrid, além de convidar novos membros, a Aliança Atlântica considerou a ascensão da China um “desafio aos (seus) interesses, à (sua) segurança e aos valores (que representa)”. A China respondeu com ironia e promessa de espingardas.

O processo de adesão da Suécia e Finlândia à NATO ocupou, compreensivelmente, quase todo o espaço noticioso sobre a cimeira de Madrid. No entanto, essa não foi a única grande novidade. O facto de os dois países tradicionalmente neutrais considerarem que a sua segurança está melhor garantida dentro do que fora da Aliança diz tudo o que precisamos de saber sobre o que mudou com a invasão russa da Ucrânia. Já não são só os países bálticos e os da Europa Central e de Leste que estiveram sob o domínio soviético que nos avisam da ameaça de Moscovo. Agora, até os que foram neutrais durante da Guerra Fria acham preferível estar dentro. E a Rússia pode não ser a única explicação.

A par das duas novas adesões, a relação com a China é o aspeto mais relevante e, muito provavelmente, mais estruturante do futuro da NATO e dos seus aliados globais.

A União Europeia (UE) tinha dado um importante sinal da transformação em curso quando, num documento estratégico publicado em março de 2019 (antes da pandemia, portanto), considerou a China “simultaneamente um parceiro de cooperação com o qual a UE tem objetivos estreitamente alinhados, um parceiro de negociação com........

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