Há várias explicações para o facto de Bruxelas e as restantes capitais europeias terem acordado segunda-feira preocupadas, mas não em estado de pânico ou horror com o resultado das eleições italianas. Algumas são melhores que outras.

A primeira explicação é a dependência mútua. Itália é a terceira economia europeia e da zona Euro, uma das mais industriais, e membro do G7. Mas tem uma dívida pública de 150% do PIB e foi o maior beneficiário do Fundo Europeu de Recuperação e Resiliência, de onde poderá receber, se cumprir as regras, 191,5 mil milhões de Euros. E precisa que o Banco Central Europeu esteja disponível para intervir caso a diferença entre os juros da dívida pública dos vários membros da zona euro comecem a divergir ainda mais.

Embora muitas das propostas de Giorgia Meloni impliquem redução de receita e aumento de despesa com prestações sociais (e medidas protecionistas), Itália sabe que não pode perder o apoio do dinheiro europeu e do Banco Central. Mas Bruxelas e Frankfurt também sabem que não podem castigar demasiado o futuro governo italiano, cortando nas transferências financeiras ou na intervenção do BCE, sob pena de colocar em risco toda a zona Euro. O que significa que Itália tem de ter cuidado com o que faz, e a Europa também.

A segunda razão é que se acha que havia pior. Em 2018, a Liga ficou em segundo lugar e Matteo Salvini acabou por chegar a vice-primeiro ministro e ministro do Interior. Nesse tempo, as medidas que tomou para impedir a entrada de imigrantes e refugiados em Itália chegaram a levá-lo a tribunal. Além disso, a sua proximidade com Putin resistiu à invasão da Ucrânia. Tal como a amizade entre Berlusconi e o líder russo. Agora, mesmo que regresse ao governo, Salvini continuará a não ser líder. E o ex-primeiro ministro Berlusconi também não.

A Ucrânia é, precisamente, a outra razão que deixa os restantes governos europeus menos preocupados do que se fosse outro o partido à direita a ganhar. Apesar de alguma admiração por Putin (por alguma bizarra razão, há uma direita europeia que projeta no líder russo a defesa dos valores tradicionais europeus), Giorgia Meloni tem sido atlantista e, mesmo que trumpista, não pôs em causa o apoio à Ucrânia. De resto, Meloni é presidente do partido europeu onde está o partido que governa na Polónia e onde já estiveram os conservadores britânicos. Apesar de todas as objeções, o governo polaco não provoca, em Bruxelas e no resto da Europa, os mesmos arrepios que Órban. Pelo menos por estes dias.

Quando fala de aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e da defesa da família tradicional, Meloni deixa uma grande parte dos europeus, à esquerda e mesmo ao centro direita, horrorizados. Mas a verdade é que essas matérias não são da competência da União Europeia. Exceto no limite da violação de Direitos Fundamentais protegidos, evidentemente. Enquanto não for esse o caso, os restantes governos europeus convivem com o que faz parte das propostas políticas legítimas em democracia. O que não impedirá os ativistas de reagir empenhadamente. Mas uma coisa é ser contra o aborto, outra é ser-se fascista, pôr em causa a democracia ou em risco o Estado de Direito. E em Bruxelas faz-se, naturalmente, essa distinção. Além disso, a história política de Itália, de sucessivos governos de curta duração, tem feito crer que a resistência das instituições italianas, dos tribunais à presidência da república, é grande. É, pelo menos, essa a convicção. E a esperança.

No Financial Times dos últimos dias, a par das notícias da vitória da extrema-direita em Itália, vários autores, académicos especialistas em política e democracia como Cas Mudde e Rosa Balfour, ou comentadores como Tony Barber, todos insuspeitos de simpatias extremistas, têm repetido que acreditam que a democracia italiana não está necessariamente em perigo. Por todas estas razões, precisamente. E porque, apesar das simpatias juvenis e de ter um facho como símbolo do seu partido, os autores hesitam em chamar fascista a Meloni. Preferem dizer que o seu partido tem raízes aí. Pode não ser a mesma coisa, esperam. Já quanto a Salvini, que deverá fazer parte do governo, as preocupações são bem maiores.

Isto tudo dito, basta ver quem celebrou a vitória de Giorgia Meloni para saber quem tem razões para estar preocupado. Não foi a CDU alemã (muito menos a CSU, tradicionalmente mais conservadora), não foi o Partido Popular espanhol (Meloni já fez campanha pelo Vox), nem a Nova Democracia grega. Em todos os países, os grupos políticos entusiasmados com a vitória de Meloni estão nas franjas da respeitabilidade. Ou já para lá dela. E isso, evidentemente, devia ser uma lição para a direita liberal conservadora. Não foi uma das suas que ganhou.

Olhando para os resultados italianos, a maior expectativa nas capitais europeias é que este governo dure pouco, não estrague muito e seja constrangido pelas instituições italianas e europeias. Não é grande coisa, mas poderia ser pior.

QOSHE - Podia ser pior - Henrique Burnay
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Podia ser pior

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27.09.2022

Há várias explicações para o facto de Bruxelas e as restantes capitais europeias terem acordado segunda-feira preocupadas, mas não em estado de pânico ou horror com o resultado das eleições italianas. Algumas são melhores que outras.

A primeira explicação é a dependência mútua. Itália é a terceira economia europeia e da zona Euro, uma das mais industriais, e membro do G7. Mas tem uma dívida pública de 150% do PIB e foi o maior beneficiário do Fundo Europeu de Recuperação e Resiliência, de onde poderá receber, se cumprir as regras, 191,5 mil milhões de Euros. E precisa que o Banco Central Europeu esteja disponível para intervir caso a diferença entre os juros da dívida pública dos vários membros da zona euro comecem a divergir ainda mais.

Embora muitas das propostas de Giorgia Meloni impliquem redução de receita e aumento de despesa com prestações sociais (e medidas protecionistas), Itália sabe que não pode perder o apoio do dinheiro europeu e do Banco Central. Mas Bruxelas e Frankfurt também sabem que não podem castigar demasiado o futuro governo italiano, cortando nas transferências financeiras ou na intervenção do BCE, sob pena de colocar em risco toda a zona Euro. O que significa que Itália tem de ter cuidado com........

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