A última vez que acreditámos que o mundo ia ser um sítio melhor, e de facto foi durante algumas décadas, foi em 1989, quando o Muro de Berlim caiu. Depois disso, todos os factos que marcam de forma decisiva e relevante o nosso mundo são crises, tragédias, dramas ou ameaças.

O 11 de Setembro, a crise financeira, a eleição de populistas em democracias, a pandemia, a guerra da Ucrânia e, em pano de fundo, as alterações climáticas. Há uma enorme parte da população (todos os que tenham nascido depois de 1985 e que, portanto, têm 36 anos ou menos) que cresceu e viveu de crise em crise, de ameaça em ameaça, de angústia em angústia. E, ao mesmo tempo, sem um inimigo ou um modelo alternativo com que se comparar.

Quem cresceu antes da queda do Muro de Berlim vivia no medo de que o mundo acabasse a qualquer momento se um dos lados (o outro) resolvesse carregar num botão. A grande originalidade deste tempo é que esta geração (por assim dizer) cresceu a acreditar que o maior problema do mundo é o próprio mundo em que vivemos. Os culpados do ódio dos terroristas, da falta de perspectivas económicas, da desigualdade, dos direitos humanos por garantir, do mundo estar à beira do fim, somos nós, os ocidentais, dizem-lhes.

Quem nasceu antes de adesão de Portugal à então CEE olha para a Europa sobretudo como o factor de transformação do país (entre outras coisas, obviamente). Quem nasceu depois - os mesmos que não se lembrarão da queda do Muro de Berlim - associa a Europa muito mais a um conjunto de valores (liberdade, democracia, direitos humanos) do que ao pote dos fundos europeus. Mas como cresceram sem inimigo, sem modelo alternativo, e num tempo em que cada activista compete por atenção dramatizando a sua causa, com frequência com sincera convicção, tudo aqui parece condenado e condenável.

Os mesmos que acreditam que a Europa é, acima de tudo, uma comunidade de valores, são os que se convenceram de que vivemos no pior dos mundos. E, no entanto, é nesta sociedade, com todos os seus defeitos e erros, actuais e históricos, que mais gente se interessa pelas causas que os preocupam, que os direitos a que damos e dão valor são protegidos, que aquilo que lhes importa ou mesmo aterroriza é discutido. E é aqui que é mais provável encontrar respostas. Mas isso é raras vezes dito.

No último dia do seu mandato como Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet acabou por conseguir publicar o seu relatório sobre Xinjiang, na China. A lista de violações de direitos humanos básicos, incluindo internamentos forçados e tortura, entre muitos outros, é literalmente brutal. E, no entanto, o que se ouviu foi o quase silêncio dos activistas. Praticamente nem um protesto ou uma manifestação se organizou. Os mesmos que saem à rua por comoventes causas, ficaram em casa. Porque a China fica longe? Porque todos os males já parecem equivalentes? Porque é sobre os outros?

Nos últimos meses, mais ainda depois da pandemia e da guerra, agrava-se a tensão entre o Ocidente e a China. Mas se não se acreditar, e ninguém disser, que estão em causa dois modelos alternativos, que a China não tem invadido países mas tem contribuído para a regressão dos valores democráticos e de liberdade (basta ver o que podia fazer e não fez na guerra da Ucrânia), que não tem os incentivos das sociedades democráticas para se preocupar com as crises ambientais, que vigia uns cidadãos e comete crimes contra outros e que não tem qualquer interesse em alimentar o activismo dos direitos humanos e as suas causas, e que tem como estratégia expandir esta visão, não se percebe que há aqui, no Ocidente, alguma coisa de bom, e de profundamente diferente, que vale a pena preservar. Se não se souber onde está o maior mal, não o vamos combater.

QOSHE - Os inimigos da geração angustiada - Henrique Burnay
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Os inimigos da geração angustiada

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13.09.2022

A última vez que acreditámos que o mundo ia ser um sítio melhor, e de facto foi durante algumas décadas, foi em 1989, quando o Muro de Berlim caiu. Depois disso, todos os factos que marcam de forma decisiva e relevante o nosso mundo são crises, tragédias, dramas ou ameaças.

O 11 de Setembro, a crise financeira, a eleição de populistas em democracias, a pandemia, a guerra da Ucrânia e, em pano de fundo, as alterações climáticas. Há uma enorme parte da população (todos os que tenham nascido depois de 1985 e que, portanto, têm 36 anos ou menos) que cresceu e viveu de crise em crise, de ameaça em ameaça, de angústia em angústia. E, ao mesmo tempo, sem um inimigo ou um modelo alternativo com que se comparar.

Quem cresceu antes da queda do Muro de Berlim vivia no medo de que o mundo acabasse a qualquer momento se um dos lados (o outro) resolvesse carregar num botão. A grande originalidade deste tempo é que esta geração (por........

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