As eleições francesas parecem ter sido há um século e estarem resolvidas com a derrota de Le Pen, nas presidenciais, e de Mélenchon nas legislativas; as mid-terms americanas parecem uma questão distante, num país que está em permanente campanha eleitoral; e as eleições italianas parecem apenas mais um episódio na opereta que é a política daquele país. E, no entanto, as três refletem o mesmo drama: a falta de alternativas. A maior contradição democrática é não haver escolha. E é o que, de uma forma ou de outra, se passa nestes três países.

Na semana seguinte à segunda volta das eleições presidenciais francesas, duas das principais publicações descreviam as tarefas que, reeleito, se impunham a Emmanuel Macron. Para o assumidamente social-democrata L’Obs, o Presidente teria de cumprir a promessa de dialogar mais, resolver a conflitualidade gerada pelas suas políticas sociais, nomeadamente a proposta de aumento da idade de reforma, e ser verdadeiramente ecologista. Para o Figaro, o jornal tradicional do centro-direita, Macron tinha de finalmente levar a cabo as reformas que tinha começado e não tinha conseguido ou querido concluir, nomeadamente a da idade da reforma (tentar chegar aos 65!).

Que um jornal de esquerda e um de direita tenha opiniões diametralmente opostas sobre o que devem ser as prioridades de um Presidente não é nada de extraordinário. O que há de relevante aqui é que tanto uma como a outra publicação tinham preferido a eleição de Macron a qualquer outro candidato viável (no Figaro ter-se-ia desejado Valérie Pécresse, a candidata dos Republicans, o velho partido da direita democrática francesa, mas Pécresse não tinha, nem teve, hipóteses de ser eleita).

O facto de um jornal de centro direita e um de centro esquerda desejarem a vitória do mesmo candidato é o primeiro sinal de que alguma coisa está mal na democracia. A consequência é que, esperando ambos coisas diferentes do Presidente, obviamente algum sairá desiludido. Ou, mais provavelmente, os dois. E quem diz os jornais diz, obviamente, os eleitores.

Nos Estados Unidos da América, a ala trumpista terá ganho a maioria das eleições primárias entre os Republicanos, deixando os moderados (no caso, de direita) sem alternativas. Ou votam nos Democratas (quando os Democratas não escolheram os seus próprios radicais) ou não votam coisa nenhuma. (Depois do que já se sabe sobre o final da presidência Trump, não é possível defender o ex-Presidente americano e os seus apoiantes sem ser por absoluta e obscena cegueira partidária.)

Em Itália, a fragmentação e contradição dos vários partidos necessários para governar levou Mario Draghi à liderança do Governo sem que tivesse ido a votos. Era a única opção razoavelmente consensual. Que durou pouco. E, mais uma vez, nas próximas eleições legislativas as alternativas são reduzidas, ou mesmo nenhumas. Se a direita tiver maioria, o país deverá ser governado pelos Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, que se apresenta menos radical do que já foi mas, ainda assim, continua a ser vagamente racista, iliberal e, em geral, distante da tradição da direita moderada e alinhada com a agenda anti-woke da direita obcecada com a esquerda radical. À esquerda, os desentendimentos são tantos que não parece possível qualquer acordo útil e coerente.

É verdade que cada um destes casos tem a sua história específica e é evidente que, se o populismo e os radicalismos são a grande ameaça à democracia, a solução passa por chegar a estes eleitores de outra maneira (já que anulá-los não é uma opção). E é aqui que entra a culpa dos moderados. De cada vez que um partido ou político do grande centro (do arco democrático, ou do sistema, como quiserem) deslegitima os seus opositores do espaço democrático, está a contribuir para a polarização que diz querer evitar. De cada vez que se diz que “eles são todos iguais”, que se ignoram as diferenças entre moderados e radicais do lado oposto, que se diaboliza e deslegitima os opositores democráticos, ou que se pretende que o confronto é entre os radicais e uma única alternativa democrática, aquilo que se está a fazer é alimentar o monstro que se diz querer destruir, enquanto se destrói o que se diz defender: a democracia.

Não há democracias plurais sem possibilidade de escolha. O que se passa em França, em Itália ou nos Estados Unidos, onde a escolha dos moderados se vai afunilando enquanto a viabilidade dos radicais cresce, é uma negação da democracia. E, em grande parte, isso é culpa dos democratas que passam o tempo a deslegitimar as alternativas e a promover o confronto com os radicais. Até ao dia em que os radicais serão, de facto, a alternativa.

QOSHE - Democracias de partido único - Henrique Burnay
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Democracias de partido único

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17.08.2022

As eleições francesas parecem ter sido há um século e estarem resolvidas com a derrota de Le Pen, nas presidenciais, e de Mélenchon nas legislativas; as mid-terms americanas parecem uma questão distante, num país que está em permanente campanha eleitoral; e as eleições italianas parecem apenas mais um episódio na opereta que é a política daquele país. E, no entanto, as três refletem o mesmo drama: a falta de alternativas. A maior contradição democrática é não haver escolha. E é o que, de uma forma ou de outra, se passa nestes três países.

Na semana seguinte à segunda volta das eleições presidenciais francesas, duas das principais publicações descreviam as tarefas que, reeleito, se impunham a Emmanuel Macron. Para o assumidamente social-democrata L’Obs, o Presidente teria de cumprir a promessa de dialogar mais, resolver a conflitualidade gerada pelas suas políticas sociais, nomeadamente a proposta de aumento da idade de reforma, e ser verdadeiramente ecologista. Para o Figaro, o jornal tradicional do centro-direita, Macron tinha de finalmente levar a cabo as reformas que tinha começado e não tinha conseguido ou querido concluir, nomeadamente a da........

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