A Rússia invadiu a Ucrânia. Sem ter sido provocada, sem ter sido ameaçada, sem qualquer necessidade. E fê-lo de forma brutal e sem respeito sequer pelas regras da guerra que são, de si, o mínimo dos mínimos.

Antes, a Rússia já tinha mostrado o que estava em causa. Não é medo da NATO. Não é a população russófona no Donbass. É o risco de uma democracia liberal ocidental nas suas fronteiras e, detalhe não irrelevante, com fortes ligações com a população russa.

Quando, em Novembro de 2004, a Rússia contribui para a fraude eleitoral que tentou parar a vitória de Victor Yushchenko, depois de o terem tentado matar e conseguido envenenar, ficou óbvio o que preocupava Putin.

A Rússia não tolera a escolha ocidental de um país que devia ser súbdito. Ou nem devia existir.

De novo, foi a escolha europeia e ocidental que levou à intervenção russa, e aos protestos e às manifestações na Praça Maidan, em 2013. Victor Yanukovych, que se sabia ser pró-russo, ainda assim, enquanto presidente fez o caminho da aproximação à Europa. Mas no último momento, sob pressão de Moscovo, voltou atrás e não assinou o acordo de associação com a União Europeia. O povo saiu à rua. Houve uma revolução. Yanukovych fugiu. Para Moscovo, obviamente. Khyv virou-se para o ocidente. Obviamente.

Putin respondeu. Primeiro, ocupou a Crimeia. Depois, apoiou e alimentou os separatistas do Donbass. Os mesmos que deitaram abaixo um avião da Malaysia Airlines, a voar entre Amesterdão e Kuala Lumpur, com equipamento militar fornecido pela Rússia. A resposta ocidental foi uma vigorosa tentativa por parte dos Países Baixos de resolver o assunto em tribunal. A Rússia recusou-se a colaborar.

Entretanto fizeram-se os famosos acordos de Minsk. Eram uma enorme cedência aos interesses russos, legitimando uma espécie de secessão e não pondo termo à ocupação da Crimeia. Eram uma tentativa de manter a paz, ou evitar a guerra, a qualquer custo. Ainda assim, implicavam, pelo menos, que a Rússia não continuasse a armar os separatistas. O que nunca deixou de acontecer. Até que a Rússia resolveu reconhecer os separatistas e invadir a Ucrânia, dirigindo-se à capital.

A Rússia não quis diálogo. Nem antes, nem depois da invasão. Os americanos avisaram, Macron visitou e ligou, Guterres foi ignorado. Biden tinha estado com Putin em Genebra no ano anterior, tinha tentado estender a mão e, ao mesmo tempo, avisado quanto aos limites. Putin achou que era bluff. E achou que podia.

Os polacos, os bálticos, os países da Europa Central e de Leste sabem o que está em causa porque sabem, sem um pingo de dúvida, que se não fizessem parte da NATO e da União Europeia poderiam ter o mesmo destino.

Se dúvidas houvesse, a decisão finlandesa e sueca de aderirem à NATO mostra que a Rússia não é uma potência acossada pelo Ocidente. É um regime autoritário, agressivo, expansionista e pouco previsível que preocupa países com tradição não belicosa.

Ninguém na Estónia, na Letónia, na Lituânia ou na Polónia ignora o que os livros de História recordam sobre a Rússia. No Ocidente, só uma fé inexplicável na bondade de Putin, ou na sua racionalidade, explica a dúvida sobre o que move o presidente russo. Ou ódio ao Ocidente e à América. Ou então é mesmo o que parece.

Em plena guerra, a Ucrânia pede para ser reconhecida como país candidato à adesão à União Europeia. Isso significa que a Europa alimenta um sonho: ser o destino da prosperidade, liberdade e democracia ocidentais à sua volta. E que o seu maior valor geopolítico continua a ser essa capacidade de atração. Os europeus, alguns com enorme surpresa, descobriram que há gente aqui ao lado disposta a morrer por ter essa possibilidade. (Apesar da violência da guerra, há notícias de ucranianos emigrados que regressam ao país para combater, mas mal se houve falar de homens entre os 18 e os 65 que fogem da guerra e do combate. O que seria humanamente compreensível.)

Perante isto, há países a fazer contas aos subsídios que podem perder ou ao dinheiro que terão de gastar com a adesão de um país pobre, devastado e agrícola. A História provavelmente não os recordará com grandeza. Nem como políticos de visão.

Sim, o confronto com o Ocidente empurra a Rússia para a China. Isso não é bom para o Ocidente. Mas nem tudo o que acontece no mundo está nas nossas mãos. E nem sempre temos boas escolhas. Ou sequer escolhas

Sim, há quem beneficie com a guerra. Há quem vá vender energia a uma Europa que quer rapidamente deixar de comprar à Rússia. E quem venda armas. Isso prova que foram eles os criadores da guerra? Não. Prova apenas que nos deixámos tornar dependentes de um adversário. E que quando há guerra vendem-se mais armas.

O Ocidente em geral, e a Europa em particular, pode e deve perceber que Putin se recusa a aceitar a decadência global russa, se recusa a aceitar a convivência pacífica que o Ocidente lhe propôs (incluindo uma relação especial com a NATO que durou anos e Putin traiu), decidiu fazer regressar Moscovo ao tempo do autoritarismo e não hesita no uso da força.

Para além da violência da guerra, o que mais preocupa é que haja, do lado de cá, quem diga que Putin foi provocado, que a NATO é uma ameaça, que a Ucrânia não tem nada que querer ser uma democracia liberal ocidental, que tudo o que se passa é responsabilidade nossa e dos ucranianos (ou do seu presidente) e que a Ucrânia não tem o direito de se defender porque isso nos prejudica a economia.

No começo da guerra o presidente Biden terá oferecido a Zelensly a possibilidade de sair da Ucrânia. Consta que o presidente ucraniano terá respondido “não preciso de boleia, preciso de munições”. Churchill não teria sido mais claro. Nem mais corajoso.

QOSHE - Coisas que deviam ser evidentes - Henrique Burnay
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Coisas que deviam ser evidentes

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21.06.2022

A Rússia invadiu a Ucrânia. Sem ter sido provocada, sem ter sido ameaçada, sem qualquer necessidade. E fê-lo de forma brutal e sem respeito sequer pelas regras da guerra que são, de si, o mínimo dos mínimos.

Antes, a Rússia já tinha mostrado o que estava em causa. Não é medo da NATO. Não é a população russófona no Donbass. É o risco de uma democracia liberal ocidental nas suas fronteiras e, detalhe não irrelevante, com fortes ligações com a população russa.

Quando, em Novembro de 2004, a Rússia contribui para a fraude eleitoral que tentou parar a vitória de Victor Yushchenko, depois de o terem tentado matar e conseguido envenenar, ficou óbvio o que preocupava Putin.

A Rússia não tolera a escolha ocidental de um país que devia ser súbdito. Ou nem devia existir.

De novo, foi a escolha europeia e ocidental que levou à intervenção russa, e aos protestos e às manifestações na Praça Maidan, em 2013. Victor Yanukovych, que se sabia ser pró-russo, ainda assim, enquanto presidente fez o caminho da aproximação à Europa. Mas no último momento, sob pressão de Moscovo, voltou atrás e não assinou o acordo de associação com a União Europeia. O povo saiu à rua. Houve uma revolução. Yanukovych fugiu. Para Moscovo, obviamente. Khyv virou-se para o ocidente. Obviamente.

Putin respondeu. Primeiro, ocupou a Crimeia. Depois, apoiou e alimentou os separatistas do Donbass. Os mesmos que deitaram abaixo........

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