As duas principais frases a propósito da demissão de Boris Johnson quase passaram despercebidas, no meio das sucessivas e pouco dignificantes trapalhadas. E, no entanto, no Reino Unido e no resto da Europa são os dois temas que verdadeiramente importam: a Ucrânia e a economia.

Segundo as notícias, quando soube da partida do Primeiro-ministro britânico, Volodymyr Zelensky terá dito a Boris Johnson que na Ucrânia ele era considerado um herói. Já na carta em que anunciou a sua demissão, o então ministro das finanças e agora candidato à liderança dos conservadores, Rishi Sunak, escreveu que o tipo de economia que procura depende de os ministros “trabalharem duro, fazerem sacrifícios e tomarem decisões difíceis. E disse mais: “Acredito firmemente que o público está pronto para ouvir essa verdade. O povo sabe que se algo é bom demais para ser verdade, então não é verdade. Eles precisam saber que, embora haja um caminho para um futuro melhor, ele não é fácil”.

Estas duas declarações são provável e justificadamente verdade e, sobretudo, muito mais importantes que tudo o resto. Por muito que o resto – as mentiras, as festas, o sucesso eleitoral, a vacinação, o acordo do Brexit e as imagens caricatas em que se deixou fotografar – façam, por agora, as primeiras páginas dos jornais.

A guerra na Ucrânia tem sido um teste às lideranças políticas, e nem todas na Europa o passam com distinção. Depois de vários chefes de Estado e de governo e, em especial, depois da presidente da Comissão Europeia, Úrsula von Der Leyen, e da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, terem já estado em Kiev é que os líderes de França, Alemanha e Itália acharam oportuno visitar o país invadido pela Rússia. O objectivo era mostrar liderança, mas a imagem foi de políticos ultrapassados e arrastados pelos acontecimentos.

A explicação para a data da visita foi evidente. Tendo falhado as primeiras idas, os líderes dos três maiores e mais pesados países da União Europeia quiseram mostrar que eram eles quem sinalizava a abertura do processo de eventual adesão da Ucrânia à União Europeia. Noutros tempos, talvez tivesse sido suficiente. Como em muitas outras ocasiões, seriam os grandes países, desta vez com Itália, a resolver um impasse europeu. Acontece que desta vez estes países não eram a solução, eram o próprio impasse. E isso ficou ainda mais evidente com a visita tardia. E a falta de clareza na necessidade de apoio pode trazer muito mais problemas do que possa parecer.

Passada a emoção e mesmo choque e horror com a invasão russa, em breve os europeus começarão a pensar na guerra mais com a carteira e menos com o coração. Ou com a razão. É aí que entra a heroicidade de Boris.

À saída da pandemia – de que ainda nem saímos verdadeiramente – já a inflação disparava. Mas é agora, e sobretudo no inverno, que o aumento dos preços e das taxas de juro se vai sentir. Nuns países, uma coisa pode servir para compensar ou mesmo travar a outra, mas onde há mais dívida que poupança, como em Portugal e não só, o risco de que um e outro processo agravem a situação económica das famílias e do país é grande. A que acresce o efeito do aumento do preço e da falta do gás russo. O que exige muita energia para ser produzido vai ficar mais caro ou corre mesmo o risco de não ser produzido. Pelo menos nas quantidades necessárias. Na Alemanha, fala-se de racionamento do gás. E os especialistas avisam que não há muitas alternativas. Se o gás russo desaparece – e, ao mesmo tempo, precisamos de mais gás do que o habitual para encher as reservas – e não há como o substituir integralmente no imediato, a única alternativa é consumir menos gás. E se voluntariamente não for suficiente, os governos vão escolher quem pode e não pode gastar.

Olhando para o que aí vem, e para o que conhecemos das movimentações políticas na Europa, é evidente que defender a posição europeia e ocidental de forte e inequívoco apoio à Ucrânia precisa de muito mais do que emoção. Precisa que se explique o que está em causa: o risco que corremos e o preço que teremos de pagar. É aí que entra o que Rishi Sunak disse sobre dizer a verdade aos eleitores.

Nos próximos tempos, quando o custo da guerra se fizer sentir, vai haver quem mude de posição, quem sublinhe a inevitabilidade de ceder à Rússia e, sobretudo, quem, como tantas outras vezes, prometa tudo. Em tempo de guerra, vai haver quem prometa a paz, proponha a cedência e defenda que o interesse nacional não se confunde com o interesse da Ucrânia. O populismo não fica pelos deserdados da globalização.

Boris Johnson achava que era uma versão moderna de Churchill. E, muito provavelmente, continuará a achar. Aceitando, apenas, que o tempo não está para líderes fora da norma. Engana-se. O que o derrotou foi o que nunca teria derrotado Churchill: não ser de confiança. O que não quer dizer que os restantes líderes europeus estejam à altura da situação.

QOSHE - A falta que um Churchill faz - Henrique Burnay
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A falta que um Churchill faz

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12.07.2022

As duas principais frases a propósito da demissão de Boris Johnson quase passaram despercebidas, no meio das sucessivas e pouco dignificantes trapalhadas. E, no entanto, no Reino Unido e no resto da Europa são os dois temas que verdadeiramente importam: a Ucrânia e a economia.

Segundo as notícias, quando soube da partida do Primeiro-ministro britânico, Volodymyr Zelensky terá dito a Boris Johnson que na Ucrânia ele era considerado um herói. Já na carta em que anunciou a sua demissão, o então ministro das finanças e agora candidato à liderança dos conservadores, Rishi Sunak, escreveu que o tipo de economia que procura depende de os ministros “trabalharem duro, fazerem sacrifícios e tomarem decisões difíceis. E disse mais: “Acredito firmemente que o público está pronto para ouvir essa verdade. O povo sabe que se algo é bom demais para ser verdade, então não é verdade. Eles precisam saber que, embora haja um caminho para um futuro melhor, ele não é fácil”.

Estas duas declarações são provável e justificadamente verdade e, sobretudo, muito mais importantes que tudo o resto. Por muito que o resto – as mentiras, as festas, o sucesso eleitoral, a vacinação, o acordo do Brexit e as imagens caricatas em que se deixou........

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