Saramago sai e os estudantes perdem – um plano de desinvestimento numa geração |
A proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais, que está em consulta pública até 28 de abril, prevê que os romances de José Saramago, "Memorial do Convento" ou "O Ano da Morte de Ricardo Reis”, possam ser substituídos por "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde", de Mário de Carvalho. O argumento oficial é "aumentar a diversidade". Mas a decisão, no contexto da política educativa em curso, diz muito mais do que aparenta.
Retirar obrigatoriedade à leitura do único Nobel português da Literatura não é apenas uma opção curricular. É um sintoma de um sistema que há décadas escolhe a linha do menor esforço. O PIRLS 2021 colocou os alunos do 4.º ano em 22.º lugar entre 43 países em leitura. O próximo estudo será realizado este ano. O problema não começa nem acaba na escola, mas é na escola que nascem soluções. E a resposta do Estado não deveria ser facilitar. Deveria ser orientar, ensinar, criar oportunidades e exigir.
Com mais de trinta anos de ensino no ensino secundário, diz-me a experiência profissional que diminuir a exigência é antidemocrático e pedagogicamente ineficaz. Por um lado, dá um sinal de que há alunos incapazes ou desinteressados e que nesses não vale a pena investir e que, por outro, há alunos que terão acesso à riqueza literária portuguesa sem preconceitos, aprofundando, assim, as desigualdades e o fosso cultural.
O facilitismo pedagógico das últimas décadas instalou-se como doutrina silenciosa. Em vez de se investir na formação de leitores capazes de enfrentar a complexidade de um Saramago, com as suas frases longas, a pontuação deliberadamente subversiva, o diálogo que obriga a pensar, optou-se por adaptar o currículo à incapacidade que o próprio sistema foi criando. É um círculo vicioso: reduz-se a exigência, porque os alunos não conseguem acompanhar e os alunos não conseguem acompanhar, porque nunca lhes foi exigido que o fizessem.
A isto soma-se o desinvestimento estrutural no Plano Nacional de Leitura. Criado em 2006 como resposta institucional aos baixos níveis de literacia, o PNL viu a sua estrutura de missão ser extinta por portaria em fevereiro de 2026. O Governo garante que o PNL continuará integrado no novo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EDUQA), mas a extinção de uma estrutura dedicada, com identidade e missão próprias, dentro de uma lógica de fusão burocrática, é tudo menos um sinal de reforço. E, deste modo, temos um duplo ataque deste governo à literacia duma geração: corta na exigência e num dos expoentes máximos da nossa literatura no currículo e, ao mesmo tempo, corta nos recursos humanos num plano que visa alargar e aprofundar o gosto pela literatura.
Entretanto, a escola pública desmorona por dentro. Mais de 158 mil alunos começaram 2026 sem professores a pelo menos uma disciplina, segundo a FENPROF. As aposentações em massa agravam o cenário. Estudos da Nova SBE estimam que, dos 122 mil professores em funções, apenas 76 mil estarão ativos em 2034 — uma perda de mais de um terço do corpo docente. As carências mais críticas são precisamente na disciplina português. E a resposta tem sido flexibilizar o acesso à docência, admitindo profissionais não profissionalizados. Temos, assim, professores menos preparados para ensinar a ler textos difíceis a alunos que cada vez menos querem ler. O Ministério da Educação e Ciência parece ter encontrado a fórmula perfeita: se há falta de professores profissionalizados a várias disciplinas, incluindo a português, vamos então diminuir a exigência para que os novos professores também possam ensinar, ainda que com menos habilitações.
Há ainda um concorrente desleal à leitura. Estudos recentes, incluindo uma investigação com mais de 8 mil crianças dos 10 aos 14 anos, demonstram que o uso de redes sociais está diretamente associado ao aumento progressivo da desatenção, efeito que não se verifica com videojogos ou televisão. O scrolling infinito, os vídeos de segundos, a validação por likes condicionam a capacidade de concentração prolongada. O cérebro de um adolescente habituado ao TikTok não é o mesmo que o de quem se senta a ler um livro de trezentas páginas sem parágrafos. Se o problema é real, a solução não é retirar Saramago; é criar condições para que os alunos consigam lê-lo.
Um país que afasta os seus jovens da literatura mais exigente não está a protegê-los. Está a empobrecê-los. Está a dizer-lhes que a complexidade é dispensável, que o esforço intelectual é opcional. Saramago escreveu sobre cegueiras. Talvez esta seja mais uma. E o preço a pagar por esta cegueira política será entregue a toda uma geração educada cada vez mais para a estupidificação coletiva.