Ao que parece os italianos estão mais preocupados com os problemas reais do país do que com as supostas “ameaças” à democracia que têm dominado o debate político na Europa. É tempo de perguntar se é a extrema-direita que é uma ameaça ou a incompetência dos partidos moderados em governar devidamente os países onde são eleitos?

Tanto a extrema-esquerda como a extrema-direita vivem dos falhanços dos restantes, alimentam-se da demagogia e sobretudo das injustiças que aqui e ali vamos assistindo. Como já verificámos por cá, os eleitores que antes votaram em protesto nos partidos da extrema-esquerda votaram recentemente na extrema-direita. Por outro lado, verificamos também que os extremos se alimentam reciprocamente para ganharem espaço mediático reduzindo normalmente o espectro político dos partidos moderados e que habitualmente são partidos de poder. O problema cresce quando os supostos moderados se aliam aos extremistas para sobreviver. Portugal sente hoje as consequências dessa aliança pois de facto o único partido que se aliou a extremistas para governar foi o PS de António Costa.

Se durante anos, o PPE foi a força que mais “governou” na Europa, nos últimos 6 a 7 anos essa correlação de forças foi-se alterando e hoje esse poder pende hoje mais para a esquerda europeia. Partidos de centro a governar com o apoio da extrema-esquerda ou da extrema-direita tornou-se um hábito e Portugal também não foi exceção. Os primeiros exemplos vieram da Áustria e da Grécia, mas tal já é hoje o novo normal. Em ambos os casos fracassaram e deveriam ter servido de exemplo, mas não.

O sistema de voto em Itália favorece coligações o que leva os partidos mais votados a terem que fazer alianças com habituais inimigos de estimação. O problema dessas coligações é que por vezes obrigam a colocar a bordo partidos extremistas tal também ocorreu com o Syriza (que tinha um partido nacionalista na coligação), aconteceu em Portugal com a Geringonça, na Áustria novamente com Kurz (mas antes com Haider) e agora em Itália com Meloni a levar a “bordo” o inaceitável Salvini que veremos que influência terá no novo Governo.

Mas nem tudo é mau e será a ligação europeia a travar eventuais ímpetos menos recomendáveis. Tal é a dependência de Itália dos fundos do PRR italiano (180 mil milhões de euros) que não vejo a nova Primeira-Ministra a tentar romper com os valores europeus. A suspensão recente (depois de anos de hesitação do Conselho Europeu) dos fundos comunitários à Hungria devem servir-lhe de exemplo. Mas o braço-de-ferro com a UE será uma tentação óbvia de Meloni que deve ter em atenção que o voto de protesto italiano não é contra a participação na União Europeia de Altiero Spinneli mas sim contra a incompetência e instabilidade provocada pelos habituais e mais recentes partidos italianos. O falhanço da nova esperança que era o Movimento 5 Estrelas é um belo exemplo de populistas que rapidamente fizeram asneira.

A realidade política italiana é mais um resultado do falhanço dos partidos tradicionais a que somou uma má experiência com extremistas. Perder Draghi como primeiro-ministro de Itália é um desperdício, mas a verdade é que em democracia é o povo que mais ordena, e ainda bem. Itália é demasiado importante para a União Europeia e só espero, e desejo, que exista bom senso e a necessária tolerância inicial para quem se propõe a governar.

QOSHE - Quando os moderados falham os extremistas sobem - Duarte Marques
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Quando os moderados falham os extremistas sobem

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27.09.2022

Ao que parece os italianos estão mais preocupados com os problemas reais do país do que com as supostas “ameaças” à democracia que têm dominado o debate político na Europa. É tempo de perguntar se é a extrema-direita que é uma ameaça ou a incompetência dos partidos moderados em governar devidamente os países onde são eleitos?

Tanto a extrema-esquerda como a extrema-direita vivem dos falhanços dos restantes, alimentam-se da demagogia e sobretudo das injustiças que aqui e ali vamos assistindo. Como já verificámos por cá, os eleitores que antes votaram em protesto nos partidos da extrema-esquerda votaram recentemente na extrema-direita. Por outro lado, verificamos também que os extremos se alimentam reciprocamente para ganharem espaço mediático reduzindo normalmente o espectro político dos partidos moderados e que habitualmente são........

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