Uma semana de boas notícias vindas de Bruxelas com destaque principal para a decisão de atribuir à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão à União Europeia. Significa isto uma europa mais política, em maior sintonia com o “sentimento” europeu e menos dependente da burocracia dos corredores de Bruxelas. Felizmente, líderes europeus como António Costa, Macron, Draghi e Sholz mudaram de opinião e seguiram a maioria dos Estados Membros que apoiavam este estatuto desde início.

Se a posição portuguesa, de hesitação inicial, tal como anunciada em Kiev, me parecia equilibrada, já a justificação dada recentemente por António Costa, da perda de fundos para Portugal, já me pareceu disparatada. Ao usar esse argumento António Costa mostrou um egoísmo e uma falta de solidariedade europeia que contrasta com a história de Portugal e do próprio Partido Socialista. Esse tipo de argumento, diria eu, parecia mais adequado a um Chega do que ao Partido europeísta de Mário Soares.

O processo de adesão à UE pode ser longo e tortuoso, mas a experiência diz-nos que é durante esse período que os países mais evoluem, fazem as reformas mais significativas e as transformações mais difíceis. É durante o processo de adesão que o desenvolvimento é mais acelerado e em que há maior empenho para melhorar a vida das populações.

Depois de semanas em que a resistência ucraniana começou a ceder ao maior poderio das forças russas em alguns territórios, a aprovação do estatuto de pré-adesão foi uma boa notícia que veio certamente reforçar o moral aos cidadãos da Ucrânia que têm aqui a principal vitória deste conflito.

Mas ontem tivemos mais uma notícia que tem tanto de significativo como de preocupante, o default russo, que significa que o tesouro da Rússia falhou um pagamento de um empréstimo contraído no exterior para se financiar, é um rombo tremendo na sua credibilidade. É primeira vez que tal acontece nos últimos 100 anos, precisamente no dia em que começou mais uma reunião do G7. Seja pelo esforço de guerra, seja pelas sanções internacionais que foram impostas pela União Europeia, a Rússia está mais enfraquecida e a sentir as repercussões da invasão bárbara à Ucrânia. Mesmo que se trate de um problema momentâneo de tesouraria, a verdade é que nem nos períodos mais negros da história recente a Rússia deixou de cumprir as suas obrigações com o sistema financeiro internacional. Este default pode significar que o “Tesouro” russo está ainda pior do que todos pensávamos e que o esforço de guerra está a ter um impacto tremendo nas contas públicas e na economia do país.

A Europa, a Ucrânia e a própria Rússia estariam bem melhor se esta guerra nunca tivesse existido. Mas o no meio da desgraça é bom assinalar o pouco de positivo que este conflito nos trouxe, a começar pela solidariedade dos povos europeus para com os milhares de refugiados da Ucrânia, sem esquecer a rapidez com que a Europa decidiu e se adaptou às novas circunstâncias. Assistimos, finalmente, ao acelerar da redução da dependência energética da União Europeia para com a Rússia como há muito não víamos sem esquecer o fortalecimento da consciência de defesa militar da Europa e o reforço do estatuto da NATO.

É no meio das crises que os grandes líderes se afirmam, mas já na pandemia e agora frente a esta crise a União Europeia provou que é um grande projeto e que tem alicerces bem fortes. A unidade e a solidariedade europeia foram colocadas à prova e não falharam. O sistema de decisão europeu foi colocado à prova e não falhou. As diferentes solidariedades bilaterais foram colocadas à prova mas o interesse europeu foi mais forte.

QOSHE - Oportunidade para a UE e para a Ucrânia - Duarte Marques
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Oportunidade para a UE e para a Ucrânia

3 2 6
28.06.2022

Uma semana de boas notícias vindas de Bruxelas com destaque principal para a decisão de atribuir à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão à União Europeia. Significa isto uma europa mais política, em maior sintonia com o “sentimento” europeu e menos dependente da burocracia dos corredores de Bruxelas. Felizmente, líderes europeus como António Costa, Macron, Draghi e Sholz mudaram de opinião e seguiram a maioria dos Estados Membros que apoiavam este estatuto desde início.

Se a posição portuguesa, de hesitação inicial, tal como anunciada em Kiev, me parecia equilibrada, já a justificação dada recentemente por António Costa, da perda de fundos para Portugal, já me pareceu disparatada. Ao usar esse argumento António Costa mostrou um egoísmo e uma falta de solidariedade europeia que contrasta com a história de Portugal e do próprio Partido Socialista. Esse tipo de argumento, diria eu, parecia........

© Expresso


Get it on Google Play