Cavaco Silva voltou a estragar a narrativa da esquerda caviar portuguesa e isso, como habitualmente, irritou muita gente. É incrível como ao longo de tantos anos os principais dirigentes da esquerda portuguesa acolitados por alguns comentadores do regime que preferem tudo o que fica em genuflexão perante o poder político e o politicamente correto, tentam, sem êxito, menorizar o passado, as reformas e o contributo de Cavaco Silva para o país. São exatamente os mesmos que tentam apagar o trabalho de Passos Coelho na recuperação de Portugal. Mas se esta herança do PSD fosse assim tão má não era necessário tanto empenho a tentar apagar ou deturpar esse legado.

A algumas pessoas faria bem ler as memórias do Professor Cavaco, parciais, admito, visto serem escritas pelo próprio, mas aí encontramos um resumo sem igual de tudo o que foi feito pelos seus Governos. Muitos erros, decerto, alguns abusos, sem dúvida, mas as principais reformas do país foram feitas nesse tempo. O que era o SNS antes de 85? Onde estava a pluralidade de imprensa? Que leis existiam de proteção do ambiente? Quantos portugueses tinham acesso ao ensino superior? Como estava o abandono escolar? Como estavam as nossas exportações? Que investimento estrangeiro havia em Portugal? Como estava a dívida pública? Qual era o salário médio? Quais os níveis de pobreza? Como estavam as nossas relações com África? A lista é enorme.

Muitos dirão que havia tudo por fazer e era mais fácil, talvez. Cavaco teve a oportunidade e as condições únicas para Governar com duas maiorias absolutas. Mas outros tiveram oportunidades semelhantes e falharam, agravando o estado do país e falhando reformas cruciais. Veja-se o exemplo de Guterres, que governou em tempos de vacas gordas e deixou o país num “pântano”, ou de José Sócrates que começou bem e depois ensandeceu. Hoje recebemos muito mais em fundos comunitários do que nas décadas de 85 a 95. Desde 2015 que há muito melhores condições para governar do que em 1985 ou 2011, mas mesmo assim ficam muito aquém em matéria de reformismo. Comparar lideranças em contextos diferentes ou sem ter em conta esses contextos é desonesto, mas foi o que António Costa fez em todos os seus discursos de tomada de posse e no último atacou especialmente o homem de Boliqueime. Desta vez, Cavaco decidiu responder à letra, e bem.

Portugal hoje estaria bem melhor se o atual Primeiro-Ministro tivesse tido a responsabilidade de não ceder à demagogia e à arte de desinformar quando tomou posse em 2015 contrariando um resultado eleitoral onde foi o maior derrotado. Depois suspendeu a dinâmica reformista do país, manteve ou agravou a austeridade, suspendeu o investimento público, distribuiu algumas benesses e inverteu políticas que tinham ajudado o país a recuperar. Muito por causa disso, Portugal atravessou a pandemia de rastos com custos irreparáveis para a saúde e para a economia portuguesa.

Pode parecer juvenil andar a discutir estes legados, e é. Cavaco Silva não se devia expor a defender o seu legado após as provocações de António Costa, não, não devia precisar. Mas se o seu próprio partido (PSD) não o defendeu publicamente, como muitas vezes recusou fazê-lo face ao legado de Passos Coelho e do PSD, e quando o próprio “ainda” Presidente do PSD faz “likes” em tweets que lhe chamam ressabiado, não restou alternativa a Cavaco Silva senão vir ele próprio dar a cara. Pelo caminho ainda deu uns merecidos tabefes a Rui Rio. Justíssimos por sinal.

A única novidade destas duas recentes iniciativas de Cavaco Silva foi um inesperado finíssimo humor, característica sua que a maioria dos portugueses não tinha ainda tido a oportunidade de conhecer.

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Cavaco volta a estragar a narrativa “oficial”

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07.06.2022

Cavaco Silva voltou a estragar a narrativa da esquerda caviar portuguesa e isso, como habitualmente, irritou muita gente. É incrível como ao longo de tantos anos os principais dirigentes da esquerda portuguesa acolitados por alguns comentadores do regime que preferem tudo o que fica em genuflexão perante o poder político e o politicamente correto, tentam, sem êxito, menorizar o passado, as reformas e o contributo de Cavaco Silva para o país. São exatamente os mesmos que tentam apagar o trabalho de Passos Coelho na recuperação de Portugal. Mas se esta herança do PSD fosse assim tão má não era necessário tanto empenho a tentar apagar ou deturpar esse legado.

A algumas pessoas faria bem ler as memórias do Professor Cavaco, parciais, admito, visto serem escritas pelo próprio, mas aí encontramos um resumo sem igual de tudo o que foi feito pelos seus Governos. Muitos erros, decerto, alguns abusos, sem dúvida, mas as........

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