Como nos diz a sabedoria popular "os extremos tocam-se" e a experiência política portuguesa, mas também a europeia, diz que a extrema direita e a extrema esquerda votam muito mais vezes em conjunto do que lhes convém admitir e que na verdade se alimentam reciprocamente. Se têm dúvidas vejam as votações tanto do Parlamento português como do Parlamento Europeu.

Mas agora temos um fenómeno novo, uma aliança estratégica. O estilo de liderança que Augusto Santos Silva (ASS) trouxe ao Parlamento encontrou em André Ventura o aliado perfeito para a sua candidatura presidencial, que se não estava na sua cabeça quando aceitou o cargo acabou por se colocar como previsível após os "primeiros combates".

Se Santos Silva tem a razão moral do seu lado nas reprimendas que tem dado, a verdade é que, salvo raras exceções, não é ao presidente da Assembleia da República que compete esse papel. Mas oportunisticamente ASS tem assumido esse protagonismo, seja por inação dos restantes partidos seja por, acredito, se divertir a fazê-lo. O problema é que com algumas destas atitudes e reprimendas acaba tanto por dar "palco" a Ventura e ao Chega e, pior do que isso, a dar-lhe razão em alguns dos seus protestos por discriminação. Ora, o que Ventura gosta, e tem jeito, é para se fazer de vítima. Dar-lhe essas oportunidades, sob a capa do antiextremismo, é alimentar o bicho com a palha de que ele mais gosta. É um disparate que só é útil a André Ventura e a Santos Silva.

Sempre que André Ventura fizer discursos racistas, xenófobos ou discriminatórios compete em primeiro lugar aos restantes partidos pedirem a palavra e desancarem o mais e melhor que souberem contra essas alarvidades. Se estes não o fizerem, aí sim, o presidente da Assembleia da República tem a obrigação de defender a Constituição e impor o respeito na sala. No resto, cumpre-lhe fazer cumprir o regimento de forma igual para todos, mesmo para os radicais do Chega, do BE ou do PCP.

Se o presidente do Parlamento tivesse de usar da palavra sempre que algum orador mentisse, fizesse ataques vexatórios ou simplesmente deturpasse a verdade ou não cumprisse o regimento do Parlamento, então Santos Silva estaria quase sempre a interromper os deputados do Bloco, do PCP e, principalmente, alguns membros do Governo.

Assim, se Santos Silva é por ora o principal aliado útil de André Ventura, por seu lado o líder do Chega já parece o mandatário ou diretor da campanha presidencial de ASS. O problema é que ambos sabem disto e não parecem nada arrependidos ou incomodados com a situação

QOSHE - A aliança estratégica de Ventura e Santos Silva - Duarte Marques
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A aliança estratégica de Ventura e Santos Silva

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02.08.2022

Como nos diz a sabedoria popular "os extremos tocam-se" e a experiência política portuguesa, mas também a europeia, diz que a extrema direita e a extrema esquerda votam muito mais vezes em conjunto do que lhes convém admitir e que na verdade se alimentam reciprocamente. Se têm dúvidas vejam as votações tanto do Parlamento português como do Parlamento Europeu.

Mas agora temos um fenómeno novo, uma aliança estratégica. O estilo de liderança que Augusto Santos Silva (ASS) trouxe ao Parlamento encontrou em André Ventura o aliado perfeito para a sua candidatura presidencial, que se não estava na sua cabeça quando aceitou o cargo........

© Expresso


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