Como a erosão social está a abrir caminho ao autoritarismo |
Quando as democracias começam a falhar, raramente colapsam de forma súbita. Antes disso, degradam-se por dentro: perdem autoridade moral, deixam de inspirar confiança, tornam-se incapazes de proteger os seus cidadãos e passam a administrar a insegurança em vez de a reduzir. O que se quebra primeiro não é o regime formal, mas o pacto invisível que o sustenta. É nesse ponto que a democracia deixa de ser vivida como promessa credível e começa a ser percebida como ritual esvaziado. A ascensão das autocracias não nasce, por isso, apenas da força dos seus líderes ou da eficácia dos seus aparelhos repressivos; alimenta-se, antes de mais, do enfraquecimento das democracias, da erosão do Estado Social e da sensação, cada vez mais disseminada, de que as instituições já não conseguem ordenar a vida coletiva com justiça, previsibilidade e sentido de futuro.
É esse o nervo do nosso tempo. O problema central não está apenas na existência de regimes autoritários robustos, mas na crescente dificuldade das democracias em justificarem a sua superioridade prática perante sociedades cansadas, desiguais e vulneráveis. Durante décadas, a legitimidade democrática assentou em dois pilares complementares: liberdade política e progresso material. Não bastava votar; era preciso que a democracia produzisse segurança, mobilidade social, serviços públicos eficazes, oportunidades de vida digna e a convicção de que cada geração viveria melhor do que a anterior. Ora, quando esse segundo pilar vacila, o primeiro deixa de bastar. Uma democracia que preserva procedimentos, mas falha na proteção social, abre espaço a uma pergunta perigosa: para que serve a liberdade política se ela já não consegue travar a precariedade, a desigualdade e o declínio?
É aqui que o definhamento do Estado Social se torna decisivo, sobretudo no caso europeu. A Europa não é apenas um espaço geográfico ou uma construção institucional; é, historicamente, a grande experiência política de civilização social do pós-guerra. O prestígio das democracias europeias não decorreu unicamente das suas constituições, dos seus parlamentos ou dos seus tribunais. Resultou também da criação de sistemas públicos de saúde, educação, segurança social, proteção no desemprego, direitos laborais e mecanismos de redistribuição que transformaram........