Muito obrigado, Marcelo |
Este é um pequeno texto sobre os últimos dez anos. É possível que esteja escrito dominado pela subjetividade da proximidade que fui tendo com Marcelo Rebelo de Sousa. Tentei que assim não fosse.
No fim de um mandato, é altura de, sobre o mesmo, fazer um juízo. O meu é muito positivo. Por três grandes razões: proximidade, institucionalismo e estabilidade.
Começo pela proximidade. O Presidente da República que foi igual a si próprio. É o português que melhor conhece o seu país. Assim é porque gosta genuinamente de Portugal. Porque acompanha, até nos afetos, a sua modernidade, daí o epíteto “Presidente das selfies”. E sobretudo porque o faz de forma genuína. Nunca precisou de fazer um esforço para estar com as pessoas. Tanto gosta de uma conversa, como de um passeio em que cumprimenta todos os que encontra, como de uma ação de voluntariado, ou de ver um jogo de um qualquer desporto. Alguns diziam que era excessivo, a maioria sentia-se representada pelo “Presidente Português”. “O Marcelo” que apesar de longe estava sempre próximo e com quem todos queriam e querem estar.
Mas esse Presidente dos afetos nunca falhou num único momento em que o institucionalismo se exigia. Soube bem ser o representante da República perante os mais altos dignatários estrangeiros. Nunca se esqueceu da necessidade de estreitar a relação com os PALOP (que tão bem compreende) e CPLP, de estar presente nas Instituições Europeias (e lançar os seus novos desafios) ou de perceber a vertente Ibérica (que a geografia nos impõe), determinando caminhos que trilhou e deixa para outros continuarem. No plano interno, escreveu e proferiu discursos magníficos para horas fáceis e difíceis, claros e transparente, sempre com uma referências aos nossos autores, locais e histórias, num ambiente de difusão cultural que muito poucos poderiam fazer. Dessa forma, conseguiu a quadratura do círculo, de compatibilizar este e o parágrafo anterior. Foi institucional, foi o “Presidente das Grandes Ocasiões”.
No plano político – e, como é óbvio, estivemos aqui perante um “Presidente Politico” – foi em tempos muito complicados, e dentro do possível, o defensor da estabilidade. Bem me lembro dos comentários dos detratores, que das trincheiras da esquerda à direita criticavam as condições políticas que António Conta gozou durante o seu mandato. Era usual ouvir-se que o Presidente da direita andava com António Costa ao colo. Alguns tentavam a teoria da traição ao eleitorado de base. Todos estes se esqueceram da necessidade de estabilidade para o crescimento económico do país, para o equilíbrio das finanças e para a credibilidade internacional.
Num polo oposto, há quem critique as dissoluções da Assembleia da Républica. Esquecem-se do óbvio. Nas duas primeiras não se ouviu uma palavra de contestação por parte do líder do Governo, que as queria. Na última, não olham para a história recente e para a instabilidade que a nomeação de um Primeiro-Ministro que não seja deputado, ou líder de um partido na primeira hora, traz. Enfim, contra todos os que foram assumindo posições de trincheira ou extremadas foi fazendo o possível. Não se para as tendências da história com as mãos, mas a imagem de moderação presidencial travou o maior crescimento do radicalismo. Assim se possa continuar nos próximos tempos.
Termino, já com saudades, mas com a esperança no futuro, que, de forma não irritante e genuína, o Presidente Marcelo foi trazendo.
No final, e depois destes dez anos, sempre se poderá dizer sobre o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa aquilo que se disse de Gonçalo Mendes Ramires, protagonista de uma das obras incomparáveis de Eça de Queirós: sentiu bem o torrão.
E é tempo, então, de também eu escrever: muito obrigado Marcelo.