Ucrânia e o motivo por que ainda não temos paz |
Nunca fez sentido, sem ser para os russos, chamar “operação militar especial” à invasão russa da Ucrânia, de 24 de fevereiro de 2022. Mas hoje, 4 anos volvidos, esta inverdade geopolítica torna-se ainda mais absurda. Como é que se pode encarar um conflito tão prolongado e desgastante, com impactos estruturais na arquitetura de segurança europeia, na economia global e na própria natureza da guerra convencional no século XXI, como uma “operação”?
Hoje, a questão central já não está em compreender porque é que o plano inicial do Kremlin falhou, ou porque é que a “operação” que se esperava cirúrgica e rápida se tornou um pesadelo à escala global e sem fim à vista. A questão essencial é outra: em que condições uma potência agressora decide verdadeiramente negociar a paz?
A literatura clássica sobre resolução de conflitos é clara: Estados em guerra só procuram soluções negociadas quando entendem que o custo marginal de continuar o conflito supera os ganhos esperados da sua perpetuação. A negociação séria não emerge, portanto, de um voluntarismo diplomático, mas de um cálculo estratégico de insustentabilidade. Por outras palavras: uma potência só pergunta “como é que podemos sair disto?” quando reconhece que já não consegue sustentar “como é que podemos continuar isto?”
A Rússia não está nesse ponto!
Apesar das sanções internacionais, das perdas humanas significativas e do isolamento político relativo no espaço euro-atlântico, Moscovo não revela sinais de considerar o conflito estruturalmente insustentável, pelo menos para já. Pelo contrário, o padrão estratégico observado ao longo destes quatro anos revela uma lógica distinta: antes de cada ciclo negocial relevante, intensificam-se ataques de grande escala contra infraestruturas críticas e centros urbanos ucranianos. E esta sequência de escalada militar seguida de retórica diplomática não é acidental, é instrumental.
A intensificação de bombardeamentos nas vésperas de novas rondas negociais cumpre três funções estratégicas:
Aumentar a pressão coerciva sobre Kiev, procurando melhorar a posição negocial pela via do desgaste;
Sinalizar capacidade de escalada, reforçando a credibilidade de ameaças futuras;
Testar os limites da resiliência ocidental, avaliando até que ponto o apoio militar e financeiro se mantém sustentável.
Este comportamento é incompatível com uma genuína disposição para a paz. Quem encara a negociação como um mecanismo de encerramento do conflito tende a reduzir a intensidade das hostilidades para criar condições mínimas de confiança. Pelo contrário, quem intensifica ataques antes de se sentar à mesa demonstra que encara a negociação como um instrumento tático de gestão da guerra e não como meio para a sua conclusão.
É precisamente aqui que reside o equívoco recorrente de certos discursos internacionais que apelam a “concessões realistas” por parte da Ucrânia. Ao sugerirem que a guerra pode ser abreviada mediante cedências territoriais ou neutralizações estratégicas unilaterais, ignoram um dado fundamental: a Rússia não está a negociar para sair do conflito, mas para o gerir e moldar a seu favor.
O cálculo estratégico do Kremlin permanece orientado para a continuidade. A economia russa foi progressivamente adaptada a uma lógica de mobilização prolongada; a produção militar aumentou; o controlo interno foi reforçado; e o custo humano, num regime autoritário com baixa accountability política, não produz o mesmo efeito constrangedor que produziria numa democracia liberal. Novamente: a pergunta dominante em Moscovo não parece ser “qual é a estratégia de saída?”, mas antes “que instrumentos adicionais podem ser mobilizados para prolongar a pressão?”
Este diagnóstico não implica negar a fadiga ucraniana nem o desgaste internacional. Implica, sim, reconhecer que a assimetria fundamental do conflito permanece inalterada: a Ucrânia combate pela preservação da sua soberania e integridade territorial; a Rússia combate pela revisão coerciva da ordem europeia do pós-Guerra Fria.
A História demonstra que conflitos de natureza revisionista tendem a prolongar-se enquanto a potência agressora acreditar que o tempo joga a seu favor. Se Moscovo continuar a interpretar hesitações ocidentais como sinais de erosão estratégica, não haverá incentivo estrutural para uma paz justa e duradoura.
Quatro anos depois, a resistência ucraniana não é apenas um fenómeno militar, é um fator de estabilização normativa. Ao impedir que a alteração de fronteiras pela força se consolide como precedente aceitável, Kiev mantém viva uma premissa essencial do direito internacional contemporâneo: a inadmissibilidade da aquisição territorial por agressão.
O 24 de fevereiro não é apenas um marco cronológico. É um momento de clarificação estratégica. A paz não surgirá de exortações abstratas nem de simetrias artificiais entre agressor e agredido. Surgirá apenas quando a liderança russa concluir que a guerra deixou de ser um instrumento viável de política externa. E esse momento ainda não chegou.