Os movimentos de paz |
Sátrapas, czares despóticos, teocratas, plutocratas, oligarcas e imperadores narcisistas, o que não falta são líderes que se reinventaram e hoje persistem na sombra de um ancien régime. O problema é que a nova ordem também privilegia exatamente este tipo de líderes sem escrúpulos, mas desta vez mais evoluídos. Podemos chamar-lhe uma espécie de elite globalista que não se interessa por nada e ninguém, possuindo três ou quatro passaportes e residências em várias cidades ilustres (Lisboa tem sido very cool, very mindful). Para além disso existem os negócios emaranhados que até as aranhas invejam. Ninguém consegue distinguir onde termina o interesse privado amalgamado com a política local, envolvendo fundos imobiliários e outras organizações opacas ou sociedades anónimas. O objetivo principal é simples, lucrar ao máximo e dar continuidade aos interesses, seja qual for o custo.
Paralelamente, o nacionalismo é semeado e exacerbado para que o vox populi seja ofuscado com deturpações da realidade. Desta forma permanece dormente no seu quotidiano. Mas com o dedo apontado ao seu semelhante, o pequeno trabalhador, por vezes, estrangeiro, que, como ele, apenas tenta sobreviver, sem saber o que lhe reserva o dia seguinte.
A verdadeira tragédia do século XXI já não reside apenas nas novas guerras que Mary Kaldor prenunciou, mas na erosão silenciosa do Estado. Uma corrosão progressiva, infiltrada por interesses corporativos que raramente coincidem com os das populações. Criou-se um fosso profundo e estrutural entre o discurso político e a experiência vivida, em que as pessoas vivem à margem das decisões que são tomadas. E, ainda assim, são essas decisões distantes que redesenham destinos. Uma guerra reconfigura identidades, apaga futuros e redefine o lugar dos países e das regiões, até de potências hegemónicas, e da ordem em si.
Houve um tempo em que existiam movimentos de paz. Imperfeitos, talvez, mas visíveis. Existiam protestos, manifestações e vozes coletivas que, pelo menos, impunham fricção e recusavam a inevitabilidade da guerra. Hoje, estes movimentos dissiparam-se. E, com eles, esvaziou-se também aquilo que outrora se quis chamar de comunidade internacional. As Nações Unidas permanecem, mas como forma sem substância.
Entretanto, a guerra transformou-se. É assimétrica, híbrida e difusa. Não começa nem termina de forma clara, mas bate às nossas portas sem que nos apercebamos. Os territórios em conflito tornaram-se laboratórios, como por exemplo na Ucrânia ou em Gaza. Espaços de teste, de aperfeiçoamento e de validação tecnológica com armas sofisticadas, cada vez mais eficientes e cada vez mais distantes da mão humana que as ativa. Este mercado florescente é celebrado por indústrias que prosperam e rejubilam na devastação. É assim que as novas elites globalistas também enriquecem.
Se amanhã um robô consegue matar cem pessoas numa hora, será um excelente negócio. Reflete, afinal, o pensamento de Estaline: perder uma vida é trágico, perder um milhão é estatística.
Ora bem, é isto que as guerras trouxeram. Todas, sem exceção. Desde a década de 90, não tivemos nenhuma melhoria. A ex-Jugoslávia foi esquartejada, o Afeganistão foi consumido, o Iraque desfeito. Os conflitos que entram e saem do radar mediático conforme a conveniência: Congo, Sudão, Etiópia, Eritreia, Uganda e Ruanda. A Líbia desfigurada. A Síria devastada – Damasco, outrora símbolo de continuidade histórica, reduzida a memória para quem nunca a viu. Na Ásia, Birmânia, Caxemira e outros conflitos que se dissolvem na invisibilidade.
Ao ler tudo isto, parece uma lista, daquelas de compras, que, uma vez satisfeita, deitamos fora e esquecemos até termos de comprar de novo, e assim sucessivamente. Nunca estivemos tão informados e nunca fomos tão fáceis de conduzir. A informação não esclarece, mas organiza-se para manipular.
Charles Péguy escrevia que existiam outros mundos com diferentes ritmos temporais entre as refeições. O nosso mundo moderno encontra-se apenas em degradação. E, para isso, podemos até contratar um drone para ser o nosso anjo da guarda quando andamos na rua à noite e temos medo de chegar a casa.
O mundo moderno adapta-se a sua própria decadência. É a sua especialidade, e talvez é isso que nos tranquiliza porque assim, conseguimos dormir indiferentes.