Enquanto houver literatura, o António vive |
Descobri o António, os livros do António Lobo Antunes, já tarde. É preciso compreender que à minha geração foi perguntado se éramos da equipa José Saramago ou da equipa António Lobo Antunes, como se estivéssemos diante da escolha dos gelados de praia, ou se era Perna-de-Pau ou Super Maxi — nunca ambos. Por isso, só mais tarde lhe descobri os sabores, já na faculdade, quando percebi que a literatura não tinha de ser o futebol, que a literatura não tinha de obedecer a essas rivalidades de bancada. Gostar ou não do trabalho de Lobo Antunes há muito que passou a ser irrelevante, venha de quem vier, porque os seus livros — e as suas crónicas, embora ele as desdenhasse publicamente — atingiram há muito uma dimensão e uma qualidade literárias que não se submetem a esta sociedade inquieta e um pouco infantil, sempre obcecada pelo «gosto».
Só tive uma interação com o autor, há muitos anos, numa sessão de autógrafos de um livro seu. Elogiei-lhe a obra e ele, certamente por uma delicadeza recíproca, elogiou-me a gabardina às flores que eu levava vestida. Ficámos assim: eu com os livros dele, ele talvez com a minha gabardina na memória.
O trabalho do António é indubitavelmente uma inspiração para todos os autores portugueses e para outros tantos estrangeiros que também vêm beber às suas páginas, molhar o bico naquela prosa que tantas vezes parece voo. Estou certa de que todos lhe reconhecemos o golpe de asa. Afinal de contas, «não é meia-noite que quer». Mais do um romancista de génio, António Lobo Antunes é um poeta da prosa. Pensou e escreveu, como ele próprio dizia: «Ninguém escreve como eu, nem mesmo eu próprio.»
Como também lembrou uma vez, numa conversa com Carlos Vaz Marques no extinto programa da TSF – Rádio Notícias, Pessoal e Transmissível, citando o escritor Manuel da Fonseca: «Isto de estar vivo ainda vai acabar mal». E acaba mesmo para o comum dos mortais. Mas não para o António. Enquanto houver literatura, o António vive.