Deus lhe pague

Em 1971, Chico Buarque lançou a música "Construção". Conta a história de um dia na vida de um operário que levanta a cidade e que acaba morto na rua, em versos que terminam todos em palavras esdrúxulas e que, a meio da canção, trocam de lugar, como se a vida se baralhasse. Há poucas canções que digam tanto sobre quem levanta as cidades e não cabe nelas.

Cinquenta e cinco anos depois, para não ter lugar na cidade, já não é preciso cair de um andaime. Basta receber uma carta. Se Chico escrevesse hoje a canção, talvez começasse assim:

Amou aquela casa como se fosse a única. E era. Nela crescera, aprendera os ruídos do prédio, conhecia os vizinhos pelo nome. Pagava a renda todos os meses, cumpria o contrato. Um dia, o prédio foi vendido e o novo proprietário tinha outros planos. A casa continuava no mesmo lugar, mas já não era para ela.

Chamava-se Maricarmen Abascal, tinha 87 anos e foi despejada da casa onde vivera quase toda a vida, em Madrid. Morreu antes de poder regressar à casa que lhe tinham prometido devolver. Setenta anos valeram menos do que uma oportunidade de negócio. E isso não foi um acidente. Foi o mercado a funcionar exatamente como o deixámos funcionar.

A sua história tornou-se um símbolo e as acampadas na Puerta del Sol deram-lhe corpo. A mesma imagem chegou ao Porto e a Lisboa, onde há quem monte tendas para protestar contra uma crise que os impede de encontrar casa ou os obriga a viver com medo de a perder. O que as pessoas pedem está escrito nos cartazes: rever a lei das rendas, travar a compra de casas por fundos, mais habitação........

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