Votar contra Jesus

Passei nove anos da minha vida na catequese. Durante esse período, todos os sábados, ia à missa. As minhas cassetes VHS tinham a Pantera Cor-de-Rosa, mas tinham sobretudo as histórias da Bíblia. Ainda em criança, comecei a ler teoria religiosa para escrutinar episódios bíblicos, e sobretudo para entender de que forma a religião moldou a vida. Já em adulta, escrevi Palavra do Senhor, um romance que parte da Bíblia para ser outra coisa. Sou ateia, e sou-o há muitos anos, mas nada disso me impede de estar, por tudo o que listei, próxima do Cristianismo, muito menos o tira do que sou. Foram muitas as manhãs de domingos a ouvir falar de pão partido, de um homem que lavou os pés a outro, da inutilidade de se ganhar o mundo inteiro quando se perde a alma, da generosidade como forma de estar na vida, do conhecimento da verdade como libertação e sobretudo do amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Se isto não é máxima de vida, não sei o que o será.

Há muito de trágico na Bíblia, em especial no Antigo Testamento: um Deus déspota, cruel, vingativo, movido pela sede de ser venerado, escolhido sobre os demais, incontestado. O Novo Testamento é outra coisa, e a partir dali surgiu uma Igreja nova. Sobretudo, saiu uma filosofia que, ao seu bom estilo metafórico, se vira para o bem – o cuidado com o outro, o braço forte sobre o fraco, mãos que agarram outras mãos.

Pouco me interessa se quem segue estes preceitos o faz em nome de uma entidade abstrata na qual não tenho qualquer crença ou se julga que um homem se levantou depois de morto. Para o efeito deste texto, é irrelevante. Quem olha para os outros como irmãos também é meu irmão. O que me interessa aqui é outra coisa: o apoderamento contemporâneo, por parte do Chega, desta tradição filosófica para fins que lhe são alheios. O CDS já o fizera em tempos, servindo-se do pior que a instituição católica tem para tentar conter progressos cívicos – e gostava de deixar clara a distinção entre a instituição política que a Igreja é, e que tantas vezes funciona como ferramenta de controlo, e a filosofia inerente à bonomia que o Cristianismo abraça. Ora, esta filosofia existe hoje no discurso político de forma diferente da que o CDS trazia a público quando tinha relevância eleitoral: agora, sempre que André Ventura, Rita Matias, Pedro Frazão e afins falam de Cristianismo, não ouço religião, mas política – política como estratégia para ganhar poder e dominar. O Cristianismo é um filão à mão, e não é por acaso que Ventura se faz filmar de joelhos ou a entrar para a missa em tarde eleitoral, e logo na igreja de São Nicolau, conhecido bastião dos ultra.

O Chega apodera-se deste histórico, tão amplamente espraiado em tantas casas deste país, para fazer caminho, para encontrar um séquito. À bom Jesus, para encontrar o seu rebanho. E fá-lo partindo sempre de uma ideia que mescla o que parece haver de socialista na filosofia cristã (os pobres contra os ricos) com o espírito messiânico de um eleito que vai pôr tudo no sítio. E é normal que isso grasse num país onde a Igreja tem tanto poder, mas educa tão pouco – educa no sentido de fazer pensar, digo. Há muita ignorância na Igreja, que costuma alimentar-se dela, não promovendo o debate, não aceitando perguntas, chutando qualquer resposta difícil para os mistérios insondáveis da fé. Vi essa ignorância ao crescer, vejo-a hoje: os catequizados que cumpriam as orações sem lhes ponderarem os sentidos; os velhos e os novos que iam à missa papaguear palavras que não queriam compreender; dogmas que passavam de geração em geração, deixando sempre a cogitação à porta; penitências cumpridas pela cedência ao pecado solitário. Tudo isso fez um rebanho, e é esse rebanho que o Chega quer pôr em frente ao seu pastor.

E, nisto, o partido falha na parte filosófica. Aliás, nem é que falhe, uma vez que não tem com ela qualquer relação honesta. Instrumentaliza-a para atingir um fim, agindo com vários tentáculos sobre a sociedade portuguesa – em cada um, parece que há um anti-Cristo. Ao voltar-se contra migrantes, que vão de uma terra à outra, deixa ao longe aquele homem que foi Jesus, a calcorrear o mundo entre a Galileia e a Judeia. Ao voltar-se contra os putos castanhos que não quer em creches, deixa ao longe aquele homem árabe que a arte litúrgica fingiu ser loiro. Ao voltar-se contra o RSI, faz-se mudo perante aquela voz que em aramaico dizia: “O que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos é a mim que o fazeis.” Ao voltar-se contra esses tantos que, pelo mundo fora, fogem da guerra e procuram encontrar neste canto da Europa alguma paz, continua mudo perante a mesma voz na mesma língua: “O que queres que os homens façam por ti, fá-lo igualmente por eles.” Tudo isto, claro, são maroscas para instrumentalizar Jesus, maroscas para alcançar poder. E, enquanto estas são levadas a cabo, ainda dá para se ouvir a tal voz aramaica ao longe: “De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?”

E sem alma é o reino do Chega – sem alma, sem dó, sem pejo. Cada vez mais, parece-me que mais católicos deviam distanciar-se disto, em seu próprio benefício, pela sua própria honra. Um partido que instrumentaliza a fé de uma religião sem aplicar a sua filosofia sem contraditório dos crentes conspurca as vozes pelas quais se arroja falar. É que um verdadeiro cristão, malgrado o papel da própria instituição católica, é outra coisa: alguém que faz a genuflexão diária não para olhar para fora, mas para dentro; que procura melhorar o mundo melhorando-se a si; que tortura a cabeça, não o corpo com um cilício, para tentar despojar-se da inveja, da maldade, da raiva – da raiva de que o Chega se alimenta, sempre vociferando contra o outro, o outro, o outro, o outro que não é igual a nós.

Com isto, a vitória do Chega é a derrota de Jesus, um voto no Chega é um voto contra o Novo Testamento. Subscrever o programa eleitoral do Chega é rasgar o Novo Testamento: privatizar bens essenciais (“bem-aventurados os pobres, porque é deles o reino dos Céus”), permitir a prisão perpétua (“Não até sete, mas até setenta vezes sete”), criar quotas para imigrantes (“era forasteiro, e me hospedastes”) – tudo isto põe a imagem de Jesus a milhas. Seria bom que tanta gente que povoa igrejas por este país fora e vota no Chega quando vai às urnas, e acha que André Ventura fala bem, e acha que o sarcasmo de Rita Matias se vira para o alvo certo, pudesse entender que aquele homem na cruz jamais se compatibilizaria com um homem que, todos os dias, finge que é crucificado.


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