O fenómeno Rita Matias

Sou escritora. Gosto de ficção. Em frente a um computador, inventei pessoas, cidades, relações, amores, sofrimentos, expectativas, quebras de expectativas, sonhos, desilusões, nascimentos, mortes, pratos, chuvas, queimaduras, violências, paixões, aproximações, rejeições, afastamentos, velocidades, lentidões, abdominais vincados, gorduras, entusiasmos e lassidões. Até inventei a cabeça de um Deus a inventar um dinossauro. Ainda assim, nem nos meus sonhos mais audazes eu ousaria voar ao ponto de fazer a cabeça de Rita Matias, muito menos de fazer as cabeças que assentem atrás dela.

Para percebermos a eficácia da sua figura oratória, não há como ignorar a questão mediática que lhe vai beber à juventude – escudo simbólico em que a inexperiência é confundida com autenticidade. Por muito que não traga ideias novas e recicle preconceitos antigos, Matias fez da idade uma ferramenta retórica e disfarçou qualquer posição de frescura, irreverência. Ora, estando esta mesa posta, seguiram-se os primeiros voos, com a deputada a navegar no óbvio, dizendo o óbvio. Os seus primeiros tempos na ribalta mostraram uma agenda política reduzida ao fim das casas de banho mistas nas escolas, ou seja, quis acabar com uma coisa que nunca existiu. Em congressos do Chega e em intervenções na assembleia da república, fez com que o país perdesse tempo com esta não-questão e arrebanhou fãs. Indignou-se, fez indignar e a seguir cavalgou o ânimo da indignação, transformando-se no Duchamp da política portuguesa: nunca ninguém subiu tanto na vida por causa de urinóis.

O voto no Chega........

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