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Fabian versus Mariana

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Fabian Figueiredo fez o discurso mais acutilante da sessão solene do 25 de Abril na Assembleia da República. Durante a tarde, a Avenida da Liberdade, em Lisboa, fervilhava de gente e tropeções. “É por serem os 50 anos da Constituição”, disse-me uma amiga. Discordei: é porque a data, que nos parece uma conquista para sempre, volta e meia se vê em risco, com o saudosismo a Salazar sentado em São Bento ou em estúdios de televisão.

Fabian Figueiredo não se pôs com palavras mansinhas, bonitas, a armar ao poético. A intervenção que fez foi pura e política, provando que a esquerda orgânica se regenera e refulge nos momentos em que sabe usar-se da retórica. Frases que querem dizer coisas, eis o caminho que não admite desvios. Fabian afirmou o período pós-ditadura como a época áurea da história portuguesa. “Os factos são insuportavelmente teimosos”, prosseguiu, e os factos são estes, e aqui prossigo eu: as eleições passaram a ser livres, deixou de haver censura prévia, o analfabetismo transformou-se em escola pública, o SNS foi criado, os direitos laborais também, as mulheres passaram a ser encaradas como pessoas, os dissidentes do governo perderam o medo do chicote, a laicidade do Estado foi reafirmada. A desvalorização de tudo isto por parte da extrema-direita mostra um certo fanatismo quase religioso, além de uma vontade de recuperar o que, durante décadas, nos pareceu findo – e lembrado só para não ser repetido.

“A ideia da ordem e do respeito é uma falsificação grosseira”, disse Fabian, o que contrasta com a ideia comummente espraiada por Ventura e afins, de que Portugal é uma bandalheira e antigamente é que era bom. O antigamente que Ventura defende é isto posto ao sol: cargas policiais em manifestações de estudantes, pais e mães que fugiam do país a salto, curvados dentro das malas de um carro, Aljube e Peniche como morada de gente com a carne à mostra, gente que não dizia amém a Salazar. Antigamente tínhamos Aurora Rodrigues 20 dias sem dormir. O nome não ressoa como o de Álvaro Cunhal, o que só prova a imensidão da crueldade do regime salazarista: gente comum às mãos da PIDE, mais de 480 horas de tortura. Foi barbaramente torturada pelo crime de ter opiniões, e a sua excruciante tortura está relatada, sem paninhos quentes, no livro Gente Comum – Uma História na PIDE, organizado por António Monteiro Cardoso e Paula Godinho.

O medo do regime de Salazar era disto, e o medo, disse Fabian, “não ensina ninguém a ler.” A democracia actual põe toda a gente na escola, o que faz com que a educação seja a melhor forma de reequilíbrio, destoando de um período em que o próprio estudo já era filtro social. Tudo isto contrasta com os discursos a armar ao moderno, mas que se voltam para mais de cinco décadas atrás, sobre as pretensas qualidades do regime salazarista, esse que ficou com méritos de encher os cofres do Estado enquanto deixava Portugal a passar fome. É ao atraso de vida que a extrema-direita quer voltar, foi isto que Fabian Figueiredo apontou no parlamento.

Já Mariana Leitão, presidente da Iniciativa Liberal, consegue olhar para uma coisa e ver outra que imagina. No seu discurso na sessão solene, apresentou a democracia como a festa dos empresários que escolheram exportar para a Europa e não para África. Se quisermos ser simpáticos, podemos dizer que é original; sendo sérios, dizemos que é facciosa. Foi um bom exemplo de um discurso vazio – minutos de insinuações vagas, a armar ao erudito. A páginas tantas, Leitão afirmou que “a partir de determinada altura, estagnámos. (…) Deixámos a dianteira, de ser um exemplo a seguir, de indicar o caminho.” Outra vez a glorificação dos descobrimentos, a colonização transformada em bem-aventurança? Que démodée. E qual será “a esperança que plantámos”? Para quem, porquê, durante quanto tempo? Não sabemos, tal como não sabemos que “país estagnado, inerte”, é este a que se refere. Portugal é mesmo “um pântano que se transformou num lamaçal de ressentimento, de invejas, de acusações fúteis, porque inúteis, de zangas infrutífera, desentendimentos frívolos, levianos e inconstantes que apenas alimentaram oportunistas da esquerda à direita”? Quem, quando? Já agora, está a falar de quê? Os discursos da presidente da IL, mascarada de Conselheiro Acácio, servem só para atirar adjectivos aleatórios para os telespectadores, os cidadãos?

Tudo isto espanta, em parte porque Mariana Leitão usa quase todo o discurso para apontar o dedo a quem dá “voz à zanga mas não às soluções”. Bem a percebemos zangada, mas não percebemos com quê, e soluções nem vê-las, uma vez que também não entendemos qual é o problema que nomeia, talvez porque não nomeia nada. O discurso é performativo, teatral. Não bastasse e a deputada dá por si, para pasmo geral, a comparar a vaga de emigração durante a ditadura com emigrações posteriores, embora também não se dê ao trabalho – que é tanto – de explicar a que período histórico se refere. É um depois que cabe em qualquer parte de 52 anos. Ainda explica que os portugueses saíram do país perante “a estagnação do seu nível de vida, da inacção da classe política”, mas que tal concretizar? Foi mesmo? É que eu lembro-me de uma vaga, era eu jovem, em que os portugueses saíram com a acção e o apelo do seu próprio primeiro-ministro, que, convém acrescentar, liberalizava o mercado ao estilo da Iniciativa Liberal: alterou o mercado de trabalho, flexibilizando-o; reduziu indemnizações por despedimentos, que também facilitou; vendeu EDP, REN e CTT; reduziu os salários na função pública.

É penoso ver uma coisa destas: a falta de rigor, as palas em frente aos olhos, a conclusão antes da análise. Aliás, a conclusão em vez da análise. Os adjectivos como peça central de um discurso. O liberalismo como El dorado, só porque é fácil dizê-lo. No que toca à emigração, a presidente da IL tem o desplante de dizer que acontece num movimento: para países de governos “liberais”. Para trás, ignorada, fica a história, e Moçambique pré-74 ri-se ao longe, sozinha. Num discurso que parece distanciar a democracia portuguesa do liberalismo, também não se percebe de que forma é que Mariana Leitão, A Rigorosa, iria enquadrar a imigração.

Mariana julga ainda que as pessoas que escolhem escolas privadas estão a “recusar que a educação dos filhos dependa de uma visão ideológica do Estado que não entendem”. De onde saiu esta conclusão? De que estudos, de que inquéritos, de que trabalho de campo? Que visão ideológica é essa que o Estado imiscui na escola pública? Acaso temos aulas de Marxismo-Leninismo na Escola Secundária de Infias? Delineiam-se estratégias de nacionalização da banca, expropriações de latifúndios e de estabelecimento de ditaduras do proletariado nas aulas de Educação Física na EB 2/3 de Vizela? Ainda por cima, esta santificação do ensino privado ignora a vaga de fundo: quantos alunos é que vão para privadas no secundário para elevarem a média, não por melhoria do ensino, mas por facilitismo na hora de atribuição de notas? O argumento encapotado de Mariana Leitão é um preconceito ideológico: considera que a escola pública é básica só porque sim, só porque é pública, tratando quase todo o país como ignorantes sem pedigree ao mesmo tempo que ignora que foi a escola pública que arrancou gerações inteiras ao analfabetismo e ao obscurantismo.

Continuam os disparates: “Quando um trabalhador aceita um contrato precário não está a resignar-se, está a sobreviver num mercado de trabalho que o Estado escolheu não reformar.” Não passa ao lado de ninguém que isto venha d'A Grande Advogada da Precarização do Trabalho, que nela aparece como flexibilidade laboral, que por sua vez é segurança patronal, razão pela qual se desconfia quando se refere nestes termos à precarização do trabalho. E o resto revela que não passou sequer meia hora a estudar: desde 1974, criou-se mais estabilidade no emprego, instituiu-se o direito à greve, legalizaram-se os sindicatos, sistematizaram-se leis laborais, criaram-se as licenças parentais. E por aí fora. Mariana culpa a precariedade do Estado, que não reformou o mercado de trabalho, ao mesmo tempo que ela mesma defende a liberalização desse mercado, o que implica a possibilidade de precariedade com base económica. Mas “Abril não se fez para que nada mudasse”, considera. E acha mesmo que Abril nada mudou? A sério? Repito: a sério? É evidente que a coetaneidade tem problemas, mas nenhum se prende com a mudança de regime, e nem a brincar se pode dizer que a vida ficou estática. Mais não fosse, os lápis azuis passaram a servir só para as crianças pintarem desenhos de mirtilos.

São frases atiradas à toa, e por isso o discurso de Mariana contrasta com o de Fabian em tudo. O segundo diz que “os factos são insuportavelmente teimosos”, a primeira ignora-os porque não dão jeito, e em vez disso atira percepções que parecem inventadas na hora, em formulações à ChatGPT.


© Expresso