Como é que a esquerda perdeu as classes populares? |
Os números estão aí, e longe de mim negá-los. O país deu uma guinada à direita e a esquerda orgânica pôs-se em mínimos olímpicos. Podemos, e devemos, questionar e denunciar o jogo sujo da extrema-direita, que vai desde a proliferação de notícias falsas a um discurso emotivo, pouco político, e até à utilização do maniqueísmo como forma de combate político – essa que nomeia o outro e faz dele inimigo. Mas, neste texto, interessa-me mais o outro lado: como é que as forças políticas que sempre se bateram pela subida social dos que tradicionalmente eram vistos e lidos como os de baixo perderam aí o apoio que tinham, deixando de poder representar quem diziam defender?
Há muita raiva acumulada e a esquerda não soube lê-la. Tendencialmente disposta a ver o mundo sob a lente da luta de classes, viu um oprimido na cadeia do sistema de produção e foi incapaz de ver que esse, que era vítima, também podia ser agressor. Além disso, perdeu-se entre os livros de Marx, crendo e insistindo numa consciência de classe que não tem como existir. Nenhum trabalhador da classe operária pensa em si como classe operária. Esse é um termo dos livros de Marx e dos discursos do Comité Central. Com a nova reconfiguração do trabalho, diria até que pouca gente pensa em si como “trabalhadora”. O nome fez-se demasiado amplo para realidades tão díspares, que vão desde os operários fabris que contam trocos aos influenciadores que ganham três mil euros por gabarem um hidratante de mindinhos. E é difícil alguém meter-se numa gaveta do tamanho de um armário: exceptuando uns muitíssimos poucos, toda a gente trabalha. Não bastasse e sentia-se o abismo: em defesa de quem recebia o salário mínimo, estava, em grande parte, quem nunca tinha vivido com um.
Este problema, esta distância, cria outro problema. Ao não conhecer de facto, na pele, as condições de vida de uma fatia tão relevante da população, a esquerda ficcionalizou-lhe a vida, e chegou a despojá-la da realidade, a caricaturá-la. Ao fingir que o mérito não existe, criou entraves a quem, sendo de classe baixa, olha para o lado e não vê o seu igual. Com a ideia de que a ascensão social era uma impossibilidade, o povo ouviu pena, e ainda que estava condenado a ser um desgraçado. Ora, a pena retira a dignidade. Ninguém gosta da mão condescendente de alguém que nos diz: bem sei, é complicado, a tua vida é tão difícil, as tuas manhãs são madrugadas, as tuas noites são tardias, o teu trabalho é tão mal pago. Pareceu uma celebração do sacrifício – e o povo não gostou de se ver sacrificado. Ainda por cima, este discurso passou a contrastar com um momento em que a vida é outra coisa. As redes sociais vieram em força e ajudam à teatralização de cada um, e a minha geração ajuda à festa. Proliferaram os influenciadores e os gurus, e ainda gente que, sem pensamento político, filosófico ou científico, peja a internet de discursos motivacionais e incentivos ao desenvolvimento pessoal. Sublinhe-se a falha óbvia: nunca colectivo. Nunca existe um olhar de solidariedade para com o outro, nunca nenhum intento de construção de comunidade, nunca nenhuma exigência perante os governantes. Seja como for, passaram a coexistir duas narrativas: de um lado, havia quem dissesse que não havia forma de se subir na vida; do outro, havia quem dissesse que só não sobe na vida quem não quer. Por simplista que seja, pelo menos dava esperança – e a extrema-direita aliou isto à criação de um alvo. Havendo um alvo, a saída parece simples: basta derrotá-lo e tudo se encaminha.
Ora, o povo quis isso – uma resposta para o problema que passasse por se sobrepor ao outro. Não quis o entendimento, a pena, a comiseração. Não quis ouvir “Eu sei que sofres.” Zangado com a vida, viu a raiva como escape para o charco. E a frustração fez-se corpo político: os homens humilhados no trabalho quiseram humilhar mulheres, os brancos sem dinheiro para a luz acharam que se estava a gastar demasiado com imigrantes, os outrora rapazes que se viram habituados à ideia da esposa como empregada doméstica quiseram ser tratados como reis. Ou seja, ao apresentarem-se os operários como vítimas e, com isto, como aliados, camaradas, foram esquecidos os mil cenários em que esses operários são opressores e adversários: também eles são machistas, homofóbicos, xenófobos, também eles dizem que os indianos são monhés. Quererem receber mais do que o salário mínimo não os torna mais sensíveis à dupla exploração das mulheres, nem os faz perder a vontade de levantar a mão ao filho gay. Ora, assumir como aliado quem não o é tem este efeito pernicioso: ninguém gosta de emprestar a voz, ninguém cabe numa checklist de um partido. E, sobretudo, quem se sente superior, seja pela cor ou pelo aparelho reprodutor, não gosta da ideia de ser igual.
Perante uma esquerda (BE e Livre) que obrigava à aceitação do pacote completo, o que não batia certo para um negro machista ou uma mulher agredida homofóbica, apareceu uma extrema-direita com um discurso que permitia escolher uma pequena coisa em relação à qual o eleitorado pudesse partir em contraponto: os imigrantes, os trans, a IVG, os pretos, os africanos, os esquerdistas, os brasileiros, os ciganos. Isto fez com que quem era desprivilegiado no trabalho pudesse entender-se como privilegiado noutras áreas, aderindo a uma narrativa em que não é bem uma vítima. Quando muito, é desapossado – não pelos de cima, mas pelos de baixo. Em vez de humilhado por uma ordem natural que perpetua a pobreza e lhe impede o poder negocial, passa a ser visto como indignamente roubado, num movimento em que a raiva volta a respirar, aquecendo por dentro. Neste cenário, a rua do Benformoso espraiou-se por todo o país como uma ameaça nacional – aqueles que vêm subverter-nos os valores, aqueles que, por se deixarem viver aos trinta de cada vez numa casa minúscula, provocam o aumento das rendas e a crise da habitação. Além disso, será mais fácil apontar o dedo a um Karim, julgando que a vida se abrilhanta ao mandá-lo para a terra dele, do que a um Bill, que, vindo de Silicon's Valley, traz na imagem e no sotaque uma aura de sucesso – por muito que esse Bill, por poder pagar 2500 euros de renda por mês, também contribua para a crise de arrendamento.
Com isto, parece-me que a perda das classes populares, sendo fruto do discurso emotivo da extrema-direita, é também o resultado de décadas de desconexão por parte da esquerda: fartas de pena, as pessoas escolheram a raiva. Ao misturar teoria com condescendência, a esquerda orgânica perdeu terreno, e perdeu ainda o controlo da semântica. Enquanto isto acontecia, a narrativa do sucesso individual, do mérito e da ascensão fácil encontrou terreno fértil, ainda que ilusório, para preencher o vazio – inclusive entre quem está a anos-luz de conseguir qualquer uma destas coisas. Recuperar esse eleitorado vai exigir mais do que discursos ideológicos e afirmações de solidariedade: vai exigir a reprogramação da narrativa de forma a juntar as análises colectivas à noção de que não só não somos todos amiguinhos, como não somos todos iguais.