A decepção de Habermas

Nascido em 1929 na Alemanha, Jürgen Habermas viu sua adolescência ter início durante a Segunda Guerra Mundial. Embora fosse jovem demais para combater no front, foi alistado como membro da Juventude Hitlerista, que dava algum respaldo ao esforço de guerra e que acabou sendo empregada no desespero final da guerra.

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Como grande parte de seus contemporâneos, em meio àquele conflito que era também travado por meio de muitas propagandas e desinformação, não tinha plena compreensão dos horrores cometidos pelo regime nazista. Aos 15 anos e vindo de uma família de classe média-alta, ele era jovem “führer” de seu grupo, quando sua unidade foi mobilizada para operar baterias antiaéreas contra o avanço das forças aliadas na Frente Ocidental. Por sorte, não morreu.

Com o fim da guerra e o acompanhamento dos julgamentos de Nuremberg, Habermas foi amadurecendo e passou a desenvolver uma das reflexões intelectuais antifascistas mais sofisticadas do mundo. Sem dúvida, seu início de formação na Alemanha nazista influenciou seu compromisso com a compreensão, definição e a promoção da democracia e do engajamento cívico.

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Do ponto de vista filosófico, Habermas tornou-se associado à defesa da importância do discurso racional, um elemento essencial para evitar o retorno de formas de totalitarismo.

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Num aspecto mais técnico, Habermas consolidou-se como um dos principais responsáveis por direcionar a uma filosofia que segue buscando a verdade, mas que reconhece que o conhecimento humano deve estar sujeito a revisão, por ser falível e, muitas vezes, provisório.

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Sobretudo no que concerne às questões de razão e da racionalidade, Habermas enfatizou a busca de uma fundamentação no esforço pelo entendimento intersubjetivo, ancorado na honesta busca pela compreensão dialógica das práticas humanas. Em resumo, Habermas era contra o monólogo e a favor do diálogo. Talvez essa tenha sido a resposta que encontrou para orientar sua vida após seus anos de juventude sob um regime autoritário e fascista, que negava visceralmente o valor e a razão do “outro” e impunha tudo goela abaixo da população por meio de propagandas e desinformação.

Em parte, porque ele era um cara legal, tinha gente que achava ele meio bobão. De toda forma, talvez seja mais fácil entender sua postura percebendo que todo o esforço que ele fazia para fazer a coisa certa e defender a coisa certa. Era um sofrido incompreendido. Porque realmente causa espécie o que sobreveio a esse país de pessoas tão bem-educadas e sofisticadas na primeira metade do século 20.

Qualquer tentativa de racionalizar o nazifascismo parece vã se não abrir espaço para uma imaginação filosófica que enxergue em formas mais profundas de democracia, ancoradas num engajamento cívico sempre honesto e respeitoso do “outro”, como antídotos mais eficazes à disposição, por vezes cômoda, de se deixar ocorrer o retorno de formas de totalitarismo.

De um jeito ou de outro, Habermas foi o último grande intelectual público europeu de base filosófica do século 20 para cá. O fato é que, ao falecer, ele deixa o mundo sem ninguém à altura. E, como o século 21 ainda não desfraldou nenhum grande intelectual público de base filosófica na Europa, fica a dúvida se não teria sido Habermas o último de sua estirpe.

Em suas últimas décadas de vida, Habermas ficou muito associado com a defesa da importância da União Europeia e do fato dela, mesmo imperfeita, ser preferível a arranjos do passado. Habermas morreu em um momento desafiador para o projeto europeu, no qual a brutalidade irracional de extremistas que rejeitam a União Europeia e não se dispõem a aprimorá-la por meio do diálogo se soma à brutalidade irracional de extremistas que desgostam da vida, sua e dos outros, de forma ativa.

Objetivamente, Habermas nunca foi pacifista. Ele reconhece que é necessário reagir e resistir a um agressor violento. Ao mesmo tempo, porém, manifestou um claro incômodo diante da crescente violação de um freio civilizatório em relação à violência arcaica da guerra. Para ele, é desconcertante que conflitos, inclusive envolvendo potências nucleares, não estejam provocando uma reflexão angustiada na Europa, cuja sorte sempre esteve no centro de suas preocupações.

Pelo contrário, Habermas viu que a guerra tem alimentado uma mentalidade belicista altamente emocionalizada, logo, pouco racional e afeita a diálogos honestos. Habermas se foi desapontado com a constatação de que esses reflexos belicosos mostram que, infelizmente, mesmo uma Europa cada vez mais tão educada e sofisticada ainda não aprendeu a encarar a guerra como uma etapa superada da civilização.

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Habermas, não morreu sem compreender a vulgaridade do mundo atual.

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