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Histérica, mas com microfone

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25.03.2026

Encontrei André Novais em Belo Horizonte e virei uma idiota. Não digo isso com desdém contra mim mesma, mas com a sinceridade meio ridícula de quem admira muito alguém e, na hora decisiva, falha em articular qualquer pensamento minimamente sofisticado. Eu queria dizer que sou fã do trabalho dele na Filmes de Plástico, que admiro a delicadeza brutal com que ele filma a vida, que em O dia que te conheci há uma humanidade rara - sim, pra mim é o nosso “Dias Perfeitos”- , uma representação preta que não se curva à caricatura, uma presença gorda na tela que não aparece como piada, castigo ou desvio. Eu queria dizer tudo isso. Em vez disso, fiquei embolada, rindo, tropeçando nas palavras, incapaz de apresentar até o roteiro da minha própria vida.

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Talvez porque, às vezes, a gente só saiba mesmo rir diante do que nos devolve dignidade. Pouco depois, vi meu nome projetado no Palácio das Artes. Trechos do Porca gorda apareciam ali, inscritos numa parede que devolvia a mim mesma uma imagem improvável: a de que minha escrita tinha chegado. A de que meu corpo, tantas vezes lido como excesso, erro ou estorvo, também podia ser linguagem, projeção, presença. E naquele instante me senti, de algum modo, justiçada. 

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Mas para chegar até ali, eu tinha atravessado justamente o oposto de qualquer dignidade. E aí é que entra o roteirista da minha vida: sempre pronto a servir ironia e dramédia da melhor qualidade até aos mais sisudos. Se eu não tivesse vivido, não acreditaria na comédia de situação que a minha vida, por vezes, se torna. 

Então vem visualizar o cinema que é minha vida. Antes de encontrar, por acaso, o André Novais, minha reserva de voo simplesmente desapareceu do sistema da companhia aérea. Sumiu. Evaporou. Como se eu nunca tivesse comprado passagem, como se o meu deslocamento fosse uma ficção. No balcão, recebi deboche. A........

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