O plantão infinito |
Há poucos dias um paciente me mandou, num sábado, algumas dezenas de mensagens. Não exagero: dezenas, com a pontualidade de quem dispara metralhadora. Como tive a ousadia de não responder a todas antes do almoço de domingo — eu, criatura de hábitos antigos, ainda almoço aos domingos —, recebi a sentença: "Já não se fazem médicos como antigamente". Ri sozinho, daquele riso mineiro que é meio tosse, meio confissão. Porque o homem tinha toda a razão. Não fazem mesmo. E, cá entre nós, ainda bem.Nasci, se não dentro de um consultório, ali pertinho — no corredor de espera de uma vida que já vinha decidida. Meu pai era médico em Ibiá, no Triângulo Mineiro, e em Minas ser filho de médico não é profissão, é parentesco com o destino. A gente não escolhe a medicina: herda, como se herda o relógio do avô, a teimosia da mãe e a mania de chegar cedo a lugar nenhum.
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Meu pai não construiu só uma carreira; construiu uma Santa Casa de Misericórdia, de tijolo e teimosia, e foi por aqueles corredores que aprendi a andar — entre macas, éter e santos de gesso que pareciam, todos eles, estarem sempre de plantão. Eu achava aquilo heroico. Hoje desconfio que era, também, um pouco de medo do nada.
Aprendi a palavra "plantão" antes de aprender a andar de bicicleta. Plantão era onde o pai estava quando não estava. Era o nome bonito que se dava à ausência. E eu, menino, jurei que um dia teria os meus — e tive, como tive. Vinte e quatro horas, trinta e seis, a conta a gente perde de propósito, porque somar dói. Dobrávamos jornada como quem dobra a aposta, certos de que a sorte do cansaço uma hora premia. Premiava: com olheira, café requentado e a vaga glória de ser o último a apagar a luz. Em Minas, a gente chama isso de dedicação. O........