A gaveta

Final de ano é tempo de arrumar gavetas. Jogar fora meia furada e separar o passado do futuro. Mas tem coisa difícil de se desapegar. 

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Você abre a gaveta da alma procurando um fiapo de sossego — e pronto, lá vem ela, toda esparramada, mostrando a bagunça que o medo faz quando resolve acampar no peito. Você suspira, meio derrotado, meio rindo de si mesmo. A ideia era tão simples: acordar leve, tomar um café sem culpa, viver. Mas não senhor. Homo paranoidus oblige, como diriam os latinos se fossem neuróticos: você mergulha no museu das aflições, nesse brechó da alma onde tudo é vintage, mas nada presta.

Faz tempo que você coleciona medos como quem coleciona borboletas — só que mais chatos, monótonos e menos coloridos. Já assistiu esse filme mil vezes: você guarda, você procura, você desiste, você guarda de novo. Mas nunca reparou no pulo do gato: no começo, cada paranoia vinha embrulhada em papel de presente, com lacinho de "proteção necessária". 

Você acreditava piamente que aquele medo de altura ia te salvar de cair, que aquele preconceito bobo era sabedoria ancestral. Mentira, meu caro. Mentira poética, mas mentira. O que você tem agora é um ferro-velho emocional, uma quitanda de quinquilharias da angústia.

E não adianta fazer cara de paisagem. Mudou tudo — ou você mudou, o que é pior. Aquela gaveta virou o símbolo perfeito da procrastinação existencial,........

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