Opinião | Os idiotólogos que acham que clubes são partidos políticos

Mauro Beting | Raphael Veiga, o menino que honrou o avô e virou ídolo do Palmeiras

Colunista do Estadão comenta saída do camisa 23 alviverde. Crédito: Mauro Beting

A camisa do Palmeiras com o nome de Benito (o de batismo de Bad Bunny), com o número 64 (ano de nascimento do tio que o fez adorar futebol americano em Porto Rico), levou à zilionésima ilação apedeuta do Palestra Itália como antro fascista paulistano.

Clube que recebeu algumas autoridades italianas no período deplorável de Benito Mussolini. Promoveu algumas festas ligadas à colônia e ao governo totalitário. Como outros também fizeram o mesmo. Ou até pior. E não quis jogo em prol do fascismo. E vetou imagens do Duce no Palestra.

Em janeiro de 1938, o aviador Bruno Mussolini, filho do ditador, recebeu homenagem dos 22 atletas que aturaram no Fla-Flu nas Laranjeiras. Uma bandeira da Itália fascista foi aberta no centro do campo antes da “peleja das multidões”, como o Jornal dos

Sports também chamava o Fla-Flu. O filho do Duce, e um grupo de aviadores italianos, foi aplaudido pelas duas torcidas cariocas.

Flamengo e Fluminense também eram um antro fascista na Guanabara?

Bad Bunny se chama Benito. Mais provável em homenagem ao líder político mexicano do século XIX do que ao Duce fascista italiano. Ou talvez seja Benito porque os pais gostam do nome. Ou amam o craque do samba Benito di Paula???

Quem sabe? Só sei que precisamos saber. E jamais generalizar.

O São Paulo tentou organizar um jogo em homenagem a Bruno Mussolini e aos aviadores italianos. Partida que o Palestra Itália se recusou a disputar. Pelo estatuto do clube, desde 1914, proibir manifestações políticas.

Cartolas corintianos históricos como Rafael Perrone e Giuseppe Tipaldo foram fichados como fascistas pela polícia politica brasileira, em 1945.

O Corinthians, então, era fascista como eles?

Claro que não. Nem o coletivo desgovernado Bonde do Che (grupo idiotológico de são-paulinos de esquerda radicalmente contrários ao estudo) diria que sim. Até pelo dérbi de 11 de outubro de 1945, quando Corinthians e Palmeiras doaram a renda de um clássico no Pacaembu para o Movimento Unificado dos Trabalhadores, ligado ao Partido Comunista.

O discurso de que um clube é mais democrático do que outro (ou de que um é mais totalitário que outro) é apropriação indébita de inópia, má vontade ou clubismo abjeto.

Quem aqui assina este texto é um cidadão como qualquer outro. Nem mais e nem menos. Mas respeitável como qualquer outro. Que pede e também exige respeito por seu voto e às sua crenças. E que o direito a ele seja sempre respeitado por quem tem a caneta, tenha ou não coturno ou cultura.

Quem aqui escreve DEPLORA ditadura. Qualquer uma, à sua direita, e à esquerda dele. LAMENTA extremas políticas, embora goste de extremas nas pontas como Garrincha e Pepe. Entende que a “virtude” não está no meio. Mas na maior distância possível dos extremos de intolerância e, muitas vezes, de ignorância.

O jornalista que aqui assina é um dos raros não-corintianos que participaram do belíssimo documentário DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO, de Pedro Asbeg. Ele também assinou o prefácio da biografia de um querido ídolo, colega e amigo Sócrates, escrita por Tom Cardoso.

Ele era o único palmeirense na cerimônia em que o Doutor ganhou um busto no Parque São Jorge.

Um palmeirense que já disse que chegou a não torcer pelo time alvinegro. Mas, pelos ideais verde-amarelos daquela democracia no Parque São Jorge, em 1982-83. Movimento que foi muito além do esporte, das cores, dos muros e dos murros.

Movimento político. Cidadão. Não partidário. Nem eleitoral - a não ser pela volta da democracia plena.

Falo tudo isso que já havia dito antes só para reiterar que o texto abaixo é muito mais político do que clubista. E para lembrar que os clubes não são mais “democráticos” porque por estes anos obscuros e obtusos condenam o Golpe Militar de 1964, e são “fascistas” porque a apedeuta correspondente do EL CLARÍN disse na festa do decampeonato brasileiro de 2018 que o Palmeiras era totalitário. Ou mesmo que havia sido antidemocrático quando os ditadores brasileiros de 1942 entraram em guerra contra os ditadores italianos, obrigando por aqui, de modo intolerante, preconceituoso, arbitrário, apedeuta e inominável a mudança do nome de pessoas jurídicas e até físicas que tivessem origem italiana, alemã ou japonesa no Brasil.

O Corinthians que bravamente empunhou a bandeira da Democracia em 1982 em campo e fora dele, dentro do clube e pelo país comandado........

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