Notícia | Crise do Master atrapalha venda do Digimais e deixa banco sob pressão
O Digimais, banco do bispo Edir Macedo, ficou numa situação ainda mais delicada depois da crise do Banco Master. O caso retirou da mesa a única proposta concreta de compra e piorou o ambiente de negociação para venda de instituições financeiras de menor porte. Ao mesmo tempo, a situação do balanço da instituição demonstra fragilidade e os índices de capital mínimos exigidos pelo Banco Central sugerem uma necessidade de aporte iminente no negócio, segundo analistas.
O banco tem hoje o quinto menor índice de capital principal nível 1 do sistema financeiro, segundo dados mais recentes da base de dados do próprio BC. Essa é uma das principais medidas de solidez e capitalização exigidas pelo regulador. Na média, bancos pequenos e médios têm esse indicador sempre acima dos 12% ou 13%, o que mostra folga de capital. No Digimais, o índice estava em 6,35% ao final de setembro de 2025. “Isso indica uma necessidade imediata de capitalização”, diz um analista, que pede para não ser identificado.
O que chama a atenção no caso do Digimais é a rápida deterioração do indicador. Em junho de 2025, o índice de capital principal havia subido para 12,1% após um aporte de capital, segundo um relatório da agência de classificação de risco Fitch. Naquele momento, a Fitch havia melhorado a nota do banco e acreditava que esse índice fosse se manter nesse patamar no final de 2025 e 2026.
Busca por comprador já dura um ano
A busca por um comprador já dura pelo menos um ano e até o momento não há qualquer interessado. O Bluebank, de Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, chegou a fechar a aquisição no início do ano passado, mas acabou impedido pela crise. No meio de 2025, o Nubank olhou o ativo, interessado na licença bancária, mas desistiu.
Agora, com a visão da necessidade de capitalização do banco, a perspectiva de o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) financiar um eventual comprador começa a circular no mercado. Soluções como essa foram utilizadas para salvar o Banco Panamericano, em 2010, vendido ao BTG Pactual e para a Caixa. “É preciso oferecer um incentivo para um eventual comprador, por meio de uma linha de crédito subsidiada”, disse um especialista em bancos e em assuntos relacionados ao FGC.
A solução para o Digimais não tem se mostrado simples no contexto da liquidação extrajudicial do Banco Master e das outras instituições que “quebraram” por consequência e já obrigam o FGC a comprometer mais de R$ 50 bilhões de seu colchão de liquidez para cobrir perdas de investidores. Um eventual cenário de liquidação extrajudicial do Digimais acrescentaria mais de R$ 8 bilhões às coberturas que o FGC vem fazendo.
Além disso, afirmam fontes com conhecimento do assunto, embora legítimas e necessárias, liquidações de bancos não são simples no Brasil, por serem na maioria dos casos acompanhadas de ações judiciais contra o Banco Central e o FGC. O risco jurídico acaba postergando o estancamento do problema via liquidação, disse uma das fontes.
O banco de Edir Macedo enfrenta ainda uma recente disputa judicial com o empresário Roberto Campos Marinho Filho, que diz ter sofrido prejuízo de quase R$ 500 milhões em uma operação envolvendo o fundo de investimento EXP 1. Segundo a ação, o Digimais teria utilizado papéis da Fictor, da Reag e do Banco Master como lastro para adquirir 80% do fundo. Os outros 20% ficaram com Marinho, por meio da Yards Capital, gestora responsável pelo veículo.
O Digimais, que tem cerca de 100 mil clientes, vem tentando crescer no crédito consignado, que é menos arriscado, e desde 2023 vem reduzindo o financiamento a veículos, que fez as taxas de inadimplência dispararem após a pandemia. Os ativos de créditos com problemas chegaram a representar 30,7% da carteira em 2022, de acordo com um relatório da Moody’s, bem acima da média histórica do banco, na casa dos 6%.
Em 2025, até setembro, o Digimais teve prejuízo de R$ 250 milhões, de acordo com o IF Data. O índice de Basileia, que mede a capitalização dos bancos, estava em 12%, muito próximo do mínimo de 11% exigido pelo BC. O banco vinha conseguindo captar principalmente com Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), mesmo instrumento que permitiu o crescimento acelerado do Master. A captação por meio desse título chegou a responder por 95% dos recursos do Digimais em 2024. No final do ano passado, o ex-presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, foi escolhido como o novo CEO do Digimais.
Procurados, o Digimais e o Banco Central não retornaram. O FGC informou que não se pronuncia sobre associadas.
Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 24/02/2026, às 19:19
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