Um país rico em capital de queixa
Portugal é, com frequência, descrito como um país de poucos recursos. Pequeno mercado, baixa escala, periferia geográfica, limitações estruturais. A narrativa repete-se há décadas, com pequenas variações de tom, mas com a mesma conclusão implícita: fazemos o que podemos com o que temos.
A questão é que este diagnóstico está enviesado. De facto, Portugal não é pobre… embora o único capital em que verdadeiramente somos ricos é o de queixa. Trata-se de um ativo imaterial, difuso, quase cultural, que atravessa gerações, setores e instituições. Está presente nas conversas de café, no discurso político, na gestão empresarial e até no comentário mediático. É um capital peculiar pois não gera crescimento, embora produza um aparente conforto. Não resolve problemas, mas legitima a sua persistência.
O capital de queixa tem uma característica particularmente perniciosa: desloca o foco da ação para a explicação, quiçá para a desculpabilização. Em vez de se perguntar “o que podemos fazer melhor?”, questiona-se “porque é que não conseguimos?”. Em vez de se procurar soluções, acumulam-se justificações. E, com o tempo, esta lógica instala-se como norma, criando uma espécie de comodidade que decorre da baixa ambição, onde o insucesso é antecipado e, por isso, quase desculpado.
As consequências económicas são claras. Menos iniciativa, menor propensão ao risco, reduzida capacidade de execução. Num contexto global altamente competitivo, onde países e empresas disputam talento, investimento e atenção, este “capital” transforma-se num verdadeiro custo de oportunidade. Cada hora gasta a lamentar é uma hora não investida em inovar e mentes focadas na crítica representam energia retirada à criação de valor.
Importa, contudo, não confundir realismo com fatalismo. Portugal tem, de facto, constrangimentos estruturais: demografia adversa, baixa produtividade, fragilidades institucionais em alguns domínios. Ignorá-los seria ingénuo, mas transformá-los em argumento permanente de bloqueio é contraproducente. A história económica mostra-nos precisamente o contrário: países com limitações severas conseguiram, em momentos críticos, mobilizar recursos, alinhar vontades e dar enormes saltos qualitativos.
Veja-se o que acontece noutros contextos. A Finlândia, com um mercado interno reduzido e condições naturais exigentes, construiu uma economia altamente competitiva baseada no conhecimento, na Educação e na inovação. A Coreia do Sul, que há não muitas décadas era um país subdesenvolvido, é hoje uma potência industrial e tecnológica, líder em setores como a eletrónica e a mobilidade. E poderíamos citar mais casos, mas o importante é que em todos eles as limitações não foram ignoradas, mas sim enfrentadas. E, sobretudo, não foram transformadas em desculpa, mas em ponto de partida para estratégias ambiciosas e orientadas para a execução.
O nosso verdadeiro desafio é, por isso, cultural. Trata-se de substituir o capital de queixa por capital de iniciativa, de trocar o lamento pela execução, de valorizar mais quem faz do que quem explica por que não se fez. Claro que isto implica liderança política, empresarial e cívica, mas também responsabilidade individual.
Num mundo onde as desculpas são abundantes e as oportunidades escassas, não ganha quem tem mais razões de queixa. Ganha quem faz melhor apesar delas. Portugal não precisa de menos problemas, precisa é de menos desculpas. E, sobretudo, de mais ação.
