“Crónicas de Lisboa” Os Escravos do nosso tempo
“Crónicas de Lisboa” Os Escravos do nosso tempo
Escrever sobre a escravatura, teria de percorrer a História, nos milhares de anos, onde ela sempre existiu e sob diversas formas, mas o que me leva a escrever sobre a de hoje é que ela é diferente da antiga, que era legal, com correntes aferroadas e objeto de “compra e venda”, como se de gado se tratasse.
A de hoje é ilegal e nem sempre visível e em muitos casos poderia chamar-se de tráfico humano, trabalho forçado, exploração humana, etc. Em 1961, era eu menino, com onze anos e acabado de fazer o exame da escola primária, fui levado, com autorização paterna, o meu pai já estava internado com a doença da época, a tuberculose, e fazia parte dum “Rancho de Ratinhos”, ou “gaibéus, da minha aldeia beirã para uma herdade no Alentejo. Eramos uma dúzia de miúdos de idades entre os onze e os treze anos, para trabalharmos, de sol a sol, em diversas tarefas agrícolas, dirigidos por um capataz ou manajeiro, por um período de cerca de nove meses, de meados de outubro a final de junho. Eram recorrentes esses movimentos migratórios das zonas do país com forte natalidade, que agravava os meios desubsistência de famílias numerosas. Falar de trabalho infantil? Esse conceito não existia e apenas a obrigatoriedade da conclusão da instrução primária limitava essa fuga da fome. Ali, no latifúndio alentejano, as condições de trabalho, habitação(!) e alimentação, era uma forma de escravatura sem amarras de ferros. Hoje existe escravatura na agricultura do Alentejo, com imigrantes que trabalham e vivem, tal como o meu rancho, em condições consideradas desumanas face à luz de conceitos dosdireitos humanos que: “Ninguém será mantido em escravatura ou servidão; a escravatura e o tráfico de escravos são proibidos sob todas as formas”.
Talvez a pior escravatura dessa gente, deslocada de milhares de quilómetros das suas terras, é seremreféns de redes de tráfico humano que os exploram. Não........
