A pedagogia de um gesto

Nascido e criado numa terra onde, de dois em dois anos, há Procissão de Passos, confesso que sempre me fascinou, e de igual modo me intrigou, a figura da Verónica. E não apenas em virtude do processo da sua escolha ser exigente, mas sobretudo porque nela tudo me inquieta e faz pensar: a veste roxa, a voz timbrada e plangente, a letra da música1 e os gestos que executa: enxuga o rosto ensanguentado de Jesus e mostra-o à multidão, estampado num lenço. Tudo isto assume uma força e uma carga simbólicas dignas de registo, a que não consigo, ainda hoje, ficar indiferente. 

Apesar de não ser mencionada nos Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), a Verónica ocupa um lugar de destaque em (quase) todas as procissões de Passos2. Por regra, canta depois do encontro entre Jesus e sua mãe e volta a cantar em diversos outros momentos da Procissão. O que diz e o que faz é tão pedagógico que – penso eu – ninguém consegue ignorar ou ficar-lhe indiferente. 

O texto apócrifo Evangelho de Nicodemos (Acta Pilati)3 refere que uma mulher chamada Berenice (ou Bernice)4 declarou diante de Pilatos: “Eu era a mulher que sofria de hemorragia e fui curada ao tocar o manto de Jesus” (nº 7). Textos apócrifos e lendas medievais posteriores identificaram esta mulher com a Verónica e assim se........

© Diário do Minho