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O futuro industrial escreve-se também a partir do Minho

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A recente carta do Primeiro-Ministro Luís Montenegro à Comissão Europeia, centrada na necessidade de assegurar uma transição industrial compatível com a competitividade europeia, abre um debate que em Portugal continua, demasiadas vezes, a ser conduzido a partir de uma lógica centralizada, distante das realidades territoriais que, em última análise, irão suportar essa transformação.

Num momento em que a União Europeia reforça instrumentos como o EU Emissions Trading System, atribuindo um custo crescente às emissões e acelerando a transformação dos processos produtivos, é cada vez mais evidente que a descarbonização não se esgota numa agenda ambiental, mas traduz uma reconfiguração profunda da economia europeia. O que permanece menos claro, porém, é a forma como essa transformação se distribui no território e quem, concretamente, dela beneficia.

É neste ponto que o Minho surge com enorme relevância. Região historicamente marcada por uma forte tradição industrial, por uma cultura de trabalho enraizada e por uma rede empresarial resiliente, o Minho reúne características que o colocam numa posição singular para participar ativamente neste novo ciclo económico. Dos têxteis ao calçado, da metalomecânica à crescente aposta em setores tecnológicos, estamos perante um território que já demonstrou, ao longo de décadas, uma notável capacidade de adaptação às mudanças estruturais da economia.

Mas essa capacidade não é, por si só, suficiente. A descarbonização da indústria, tal como hoje se impõe, exige investimentos significativos, inovação tecnológica e uma reconfiguração de cadeias de valor que não ocorrerá de forma automática. Exige, sobretudo, que o território seja pensado como parte integrante da estratégia, e não como uma variável residual de políticas desenhadas noutros centros de decisão.

Falar de regionalismo neste contexto é, portanto, afirmar algo mais exigente do que uma simples valorização identitária. É reconhecer que regiões como o Minho não podem ser apenas destinatárias de medidas compensatórias, mas devem ser protagonistas de uma transformação que passa, inevitavelmente, pela reindustrialização sustentável da economia europeia.

A aposta em energias renováveis, o desenvolvimento de soluções industriais menos intensivas em carbono, a incorporação de novas tecnologias nos processos produtivos e a criação de cadeias de valor associadas à economia circular encontram no Minho condições particularmente favoráveis. A proximidade entre empresas, centros de conhecimento e instituições locais, bem como uma cultura empresarial fortemente orientada para a exportação, constituem vantagens que não podem ser ignoradas num momento em que a competitividade europeia está em causa.

A preocupação expressa pelo Primeiro-Ministro relativamente à preservação dessa competitividade é, por isso, plenamente justificada. Num cenário internacional marcado por assimetrias regulatórias e por uma concorrência cada vez mais feroz, a transição climática europeia terá de ser conduzida com equilíbrio, sob pena de comprometer setores estratégicos.

Essa preocupação não deve ser dissociada de uma reflexão mais ampla sobre o modelo territorial do país. Um país excessivamente concentrado é um país mais vulnerável, menos eficiente e menos capaz de tirar partido das oportunidades que emergem de momentos de transformação estrutural.

O Minho, com a sua densidade empresarial, a sua capacidade produtiva e a sua identidade própria, demonstra que é possível construir alternativas a esse modelo. Mas para que isso aconteça, é necessário que as políticas públicas reconheçam esse potencial e criem condições efetivas para a sua concretização.

Isso implica, desde logo, garantir que os instrumentos de financiamento e inovação não reforçam padrões de concentração já existentes, mas contribuem para diversificar a localização da atividade económica. Implica também investir na qualificação, na inovação e na articulação entre o tecido empresarial e o sistema científico, elementos indispensáveis para uma transição bem-sucedida.

Durante demasiado tempo, o desenvolvimento foi pensado a partir de uma lógica centrípeta, em que o valor se acumulava nos mesmos espaços, deixando outros numa posição de permanente expectativa. A descarbonização oferece a possibilidade de inverter essa lógica, redistribuindo oportunidades e reconhecendo que o futuro da economia europeia se constrói também a partir de regiões como o Minho.

A questão que se coloca, portanto, não é apenas se seremos capazes de cumprir as metas climáticas europeias, mas se teremos a ambição política de fazer dessa transição um instrumento de reequilíbrio territorial.


© Diário do Minho