Retoma do Perdão?

Não se arrepender de nada não faz de alguém menos pecador. Não se arrepender de nada revela que não existe sequer consciência do pecado. E esse não será o pecado maior?

Pio XII não tinha dúvidas: «O maior pecado do mundo de hoje é o de os homens terem começado a perder o sentido do pecado». 

E a verdade é que «o pecado tornou-se um assunto de que quase não se fala» (Joseph Ratzinger). 

São João Paulo II precisou o contraste: «Depois de um tempo em que se via pecado em toda a parte passamos a uma época em que não vislumbramos pecado em lado nenhum».

Quem não se reconhece pecador que carência sentirá de um salvador? Jesus, como garante o enviado celeste, é Aquele que «”salva” o povo do seu pecado» (Mt 1, 21). 

Por conseguinte, reconhecer a necessidade de Cristo implica reconhecer a nossa condição pecadora, mas que é reversível. 

Não espanta que as primeiras palavras de Jesus na Sua missão tenham consistido numa imperiosa convocação ao arrependimento.

«O tempo chegou ao seu termo e o Reino de Deus está próximo: “arrependei-vos” e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15).

Acontece que, frequentemente, este apelo é silenciado ou não devidamente amplificado. Só que esta subestimação, ao contrário do que se poderá pensar, não favorece a evangelização.

Primeiro, porque tal apelo está incluído no Evangelho e este tem de ser anunciado na sua totalidade. E, depois, porque sem arrependimento não há mudança nem sintonia com Cristo.

Acresce que, como notou Joseph Ratzinger, é com esta incisiva advertência «que Deus quer levar-nos a reconhecer o nosso pecado e a tornarmo-nos diferentes do que temos sido».

Por vezes, o nosso discurso «assemelha-se à gravação de uma sinfonia à qual foram retirados os primeiros compassos, de tal modo que ela se encontra incompleta e o seu desenvolvimento se torna incompreensível».

A boa notícia, de que somos portadores, é que o pecado pode ser derrubado e vencido. 

Aliás, Jesus tem o cuidado de garantir que há grande alegria no Céu por um só pecador que se arrependa (cf. Lc 15, 7.10).

O arrependimento conduz ao perdão que Jesus distribui, de mãos cheias, no Sacramento da Reconciliação. 

Esta – sinalizou Walter Kasper – «é um verdadeiro refúgio dos pecadores, algo que todos nós somos; e por ela libertamo-nos dos pesos que carregamos connosco».

Se Deus – como lembrou o Papa Francisco – «nunca Se cansa de perdoar», porque havemos nós de nos cansar de Lhe pedir perdão? 

Por isso, «não renunciemos à Confissão», que «é a melhor forma de conhecer Deus como Pai amoroso que perdoa sempre». 

Tenhamos presente que «a Confissão não é um tribunal de condenação, mas uma experiência de perdão e de misericórdia». 

Que esta Quaresma incremente uma retoma do Sacramento do Perdão para que cresçamos todos em seriedade e comunhão!


© Diário do Minho