«Ao menos, uma vez por ano»

«Todo o fiel que tenha atingido a idade da discrição está obrigado a confessar fielmente os pecados graves, “ao menos” uma vez por ano».

Eis o que – com respaldo numa tradição de muitos séculos – nos recordam o Código de Direito Canónico, o Catecismo da Igreja Católica e os Mandamentos da Santa Igreja entre outros.

No quarto Concílio de Latrão (1215), foi prescrita a confissão anual para cada fiel «de todos os seus pecados» e comunhão, «”pelo menos”, na Páscoa». 

Em 1551, o Concílio de Trento, reafirmando tal preceito, regista a prática «deste sagrado costume de se confessar no sagrado tempo da Quaresma».

A confissão anual tornou-se conhecida pelo nome de «desobriga». É que, após esta, o fiel sentia-se «desobrigado», no sentido de que já tinha cumprido a sua «obrigação».

Até ao século XIX – e, em certos ambientes, até algumas décadas do século XX – os párocos consignavam o nome dos fiéis que se tinham confessado numas listas conhecidas pelo nome de «Róis de Confessados».

A ressalva «ao menos» deixa entender que a celebração do Sacramento da Reconciliação não há de circunscrever-se ao mínimo. 

Na verdade, todo o cristão deve aproximar-se deste sacramento sempre que for necessário, ou seja, logo que possível depois de algum pecado grave. 

No entanto, mesmo que não haja consciência de algum pecado grave, o recurso ao Sacramento do Perdão é altamente recomendável.

Assim, Pio XII aconselhava «o uso, introduzido pela Igreja sob a inspiração do Espírito Santo, da confissão frequente». Porquê? Porque «aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã e aumenta a graça».

Neste espírito, também São Paulo VI atesta que «a confissão oferece-nos muitos recursos espirituais, principalmente se o recurso frequente ao sacramento acompanhar o desenvolvimento da vida real, fortalecendo a alma que deseja ser forte e fiel na profissão da sua fé».

Daí que São João Paulo II apele «a todos os sacerdotes do mundo para que favoreçam com toda a solicitude a frequência dos fiéis a este Sacramento».

Não esqueçamos outra vantagem da confissão frequente: a consciencialização de que pertencemos à Igreja. 

Com efeito, ao confessarmos as nossas faltas ao sacerdote como representante de Cristo, presente na Sua Igreja, confessamo-nos em certo sentido à própria Igreja, à comunidade cristã. 

E não tenhamos pruridos de incomodar.  

A confissão jamais importuna o nosso bom Deus. 

Como salientou o Papa Francisco, «Ele nunca Se cansa de perdoar, nós às vezes é que nos cansamos de pedir perdão». 

Por isso, «não nos cansemos jamais, nunca nos cansemos. Ele é o Pai amoroso que perdoa sempre, pois o Seu coração é cheio de misericórdia por todos nós». 

A Quaresma é um tempo ainda mais favorável para a Confissão, porque ainda mais propício à Conversão. 

Que, «ao menos», durante ele busquemos o perdão junto de Quem está sempre disposto a perdoar. E que, em qualquer momento, nos acolhe, enlaça e abraça!


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