Por Entre Linhas e Ideias |
Quando é que a memória histórica passa a ser vista como problema? É conhecida a minha paixão pelo desporto em geral e pelo futebol em particular, mas o episódio ocorrido no jogo entre o Braga e o Vitória de Guimarães exige que nos distanciemos das emoções clubísticas e até do amor exacerbado a uma cidade, para fazermos uma análise racional do que realmente está em causa. O que aconteceu não foi apenas uma decisão regulamentar sobre uma tarja, mas um gesto que nos obriga a pensar na forma como lemos e interpretamos símbolos no espaço público. Estamos, a meu ver, perante um problema eminentemente de ordem filosófica e hermenêutica, isto é, um problema de interpretação do sentido e do alcance de um símbolo, que exige reflexão e não uma leitura meramente formal das regras.
Foi neste enquadramento que a PSP decidiu retirar a tarja, alegando que a coreografia não se enquadrava no apoio direto às sociedades desportivas. A inscrição afirmava: “Antes de lhe ser dado um nome, já havia terra, antes de haver cidade, já havia povo. Das gentes antigas nasceu Bracara Augusta. Onde as armas, a lealdade e a terra se tornaram numa só.” Li o texto com atenção, como alguém habituado a trabalhar com palavras e símbolos, procurando compreendê-lo no seu contexto, e não encontrei ali qualquer incitamento, ameaça ou provocação concreta, mas antes uma evocação da memória histórica e da identidade coletiva de uma cidade. Ainda assim, foi considerado inadequado, e é nesse momento que a decisão deixa de ser apenas regulamentar, porque ao remover um símbolo a autoridade afirma uma interpretação e impõe-na como válida no espaço público.
Para percebermos os riscos de uma interpretação precipitada por quem tem o dever de garantir estabilidade, recorro a um mito clássico que considero esclarecedor. No mito de Édipo, narrado por Sófocles, o herói consegue decifrar o enigma da Esfinge, mas falha na interpretação dos sinais da própria vida, acabando por cumprir, sem saber, a profecia que julgava evitar. Édipo sabia responder a uma pergunta, mas não soube compreender plenamente o contexto da sua própria história. O mito ensina-nos que interpretar não é apenas identificar palavras ou aplicar regras, mas perceber o horizonte mais amplo em que elas se inserem.
Por isso mesmo, se as chefias policiais são chamadas a decidir sobre textos carregados de simbolismo histórico, é sensato que disponham de preparação interpretativa e de referências histórico-culturais adequadas, pois determinadas decisões exigem mais do que a simples leitura do regulamento e implicam consciência do seu impacto coletivo. Neste sentido, Michel Foucault lembrava que não há exercício de poder sem um saber que o sustente, o que significa que definir o que é aceitável no espaço público não é um gesto neutro, mas a afirmação de uma determinada leitura da realidade.
Aos leitores do Diário do Minho deixo o convite para que tirem as suas próprias ilações sobre se a decisão das autoridades foi ou não precipitada, procurando fazê-lo à luz de quem mais profundamente refletiu sobre os problemas da interpretação, sobretudo quando estamos perante uma questão que é, no fundo, eminentemente filosófica. Paul Ricoeur, filósofo francês ligado à tradição hermenêutica afirmava que “o símbolo dá que pensar”, querendo com isso dizer que ele nunca se esgota numa leitura imediata e literal, porque transporta memória, identidade e horizonte histórico. Interpretar é sempre um exercício de mediação cultural e aprofundamento do sentido, algo que constato frequentemente na escola, onde estou habituado a trabalhar com textos, mitos e símbolos e sei como a capacidade de interpretar é fundamental para a aprendizagem e para a qualidade das decisões. Ensinar a ler não é apenas decifrar palavras, mas compreender contextos e intenções, porque é essa competência interpretativa que sustenta juízos equilibrados e evita decisões precipitadas.
Importa agora que cada leitor do Diário do Minho reconheça que, numa democracia madura, a autoridade policial é indispensável para garantir segurança e ordem, mas reforça a sua legitimidade quando as decisões que toma são acompanhadas da necessária preparação intelectual e de ponderação. Talvez este episódio mereça ser observado com maior moderação e menos imediatismo, e é nesse espírito que deixo esta interpelação final:
- Sabemos verdadeiramente ler antes de decidir?