menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A identidade de um clube – SC Braga

20 0
21.03.2026

Nas últimas semanas, o Sporting Clube de Braga foi notícia em todo o mundo, não pelos seus feitos dentro de campo, mas pelo ataque à liberdade de expressão a que os seus adeptos foram sujeitos. No entanto, não é minha intenção aprofundar esse debate, até porque me parece inegável que a posição assumida pelos representantes do clube e pelo Presidente da Câmara foi sublime.

O exercício aqui proposto prende-se exatamente com essa identidade e com aquilo que é ser de um clube como o SC Braga num país onde só existe centralidade e uma grande dose de hipocrisia na forma de ver o futebol e a paixão que este gera. Nos últimos vinte anos, o Braga marcou o panorama português pela qualidade das equipas que apresentou no nosso campeonato, pelos feitos que só fizeram crescer o museu do clube e essencialmente pelo crescimento de um clube que fez tudo isto fora dos dois centros políticos do país.

Este caminho solitário fez do Braga um clube diferente, um clube que todos hoje sabem que praticará bom futebol, que será muito forte em diversas modalidades e que estará sempre a competir pelos lugares cimeiros. Esta identidade não é feita apenas de vitórias ou sucessos. Hoje, recordo-me com orgulho dos tempos em que descia a avenida com o meu pai e o seu melhor amigo e víamos, no estádio antigo, um Braga que se sentia crescer com a sua cidade. Fomos um clube que cresceu através do reconhecimento solidário dos adeptos. Ainda hoje sei quem são aqueles que não perdem um jogo do Braga, aqueles que em 2013 acreditaram até ao fim, aqueles que se encontram na bomba de gasolina após uma deslocação de muitos quilómetros e os que comem o panado na tasca do careca. No entanto, também sei que somos muito mais do que isso. Não é por eu usar o mesmo cachecol que usava em criança no Primeiro de Maio, nem pelo facto de me lembrar de ver os meus pais a fumar no Estádio AXA (outros tempos), que isso faz de mim um adepto especial. Pelo contrário, não é a antiguidade que faz um clube, mas o amor verdadeiro e a dedicação total. E hoje somos cada vez mais os que vivem com orgulho o seu clube e que o sentem como uma forma de afirmação da identidade da sua cidade.

Sou do Braga por muitas razões, mas gosto particularmente do facto de ser do Braga não implicar ser contra ninguém. Muitos clubes constroem-se com base na ideia de oposição, contra o centralismo, contra a capital. Nós construímo-nos pela afirmação de uma cidade milenar, sempre ligada à Europa. Na realidade, sinto sempre que o Braga joga na sua melhor versão quando joga na Europa, porque crescemos alicerçados na ideia de que, com trabalho, dedicação e humildade, iríamos projetar a nossa imagem no mundo.

O que aconteceu frente ao Sporting CP apenas reafirma essa nossa coerência e a certeza daquilo que somos: não choramos, não passamos semanas a pedir clemência. Fomos responsáveis, falámos com as entidades e, no final do dia, mesmo quando limitaram aquilo que queríamos fazer, não fez mal, porque sabemos o que somos.Cresci com uma família e amigos que ocupavam quase meia fila de cadeiras no Estádio AXA. Hoje herdei esse hábito e partilho a fila com a minha irmã e parte dos meus melhores amigos. E sei que uma das coisas mais bonitas que deixaremos será esse sentimento de pertença a uma cidade e a um clube que não se afirma perante ninguém, apenas reconhece nos seus o companheirismo e a amizade de muitos golos celebrados em conjunto.

Ser do Braga é uma escolha livre que nos preenche num país que apoia o Leicester por ser campeão e que, ao mesmo tempo, discute os penáltis dos grandes e festejam quase todos a vitórias dos mesmos. Neste centralismo hipócrita que é o futebol, ser do Braga é respirar em liberdade. Acompanhei o discurso do Presidente da Câmara sobre o Braga no 105.º aniversário considerando o SC Braga um símbolo natural de uma cidade que se afirma pelo fazer. Fazemos todos os dias este sentimento de liberdade: aqui é Braga.


© Diário do Minho