Revitalizar as relações

No último artigo, sublinhei a importância e a urgência de revitalizar as relações entre os cristãos para testemunhar o Ressuscitado. A Páscoa exige-o e o Sínodo dos Bispos sublinhou-o. Na verdade, o Documento Final começou por referir a prioridade da conversão (Cap. I) como chamamento do Espírito e a sua incidência nas relações (Cap. II). Emergiu o apelo a uma Igreja mais capaz de alimentar as relações: com o Senhor, entre homens e mulheres, nas famílias, nas comunidades, entre os cristãos, entre grupos sociais, entre religiões e com a criação (DF 50). A qualidade evangélica das relações comunitárias é decisiva para o testemunho que o Povo de Deus é chamado a atuar na história. Para ser uma Igreja sinodal, é necessária, portanto, uma verdadeira conversão relacional. Temos de reaprender com o Evangelho que o cuidado das relações não é uma estratégia ou um instrumento para uma maior eficácia organizacional, mas é o modo como Deus Pai se revelou em Jesus e no Espírito (DF 50).

A hora do Espírito que estamos a viver na Igreja e a brasa que o Sínodo pode oferecer passam pela aceitação desta tradicional doutrina e de um verdadeiro compromisso assumido pelos cristãos e pelas comunidades. Rever as nossas relações e fazer com que estejam em sintonia com o Evangelho é a única novidade que poderemos oferecer ao mundo moderno, porque é o modo ao nosso alcance para fazer com que Cristo esteja presente entre nós quando nos amamos. A evolução do mundo moderno pede uma originalidade à Igreja. Poderemos tentar oferecer muita coisa, porventura cientificamente comprovada, mas não temos outra novidade a oferecer senão Cristo vivo e ressuscitado.

Esta doutrina já foi sublimemente enunciada pelo Papa S. João Paulo II quando apontou o caminho que deveríamos seguir no início de um novo milénio: «Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo». Não podemos ter programa mais claro para todos os tempos litúrgicos e, de um modo preeminente, para esta quadra que deveria ser de maior reflexão, acompanhada por propósitos de renovação pessoal e eclesial. Diante de um mundo indiferente e dominado pelo egoísmo, a Igreja deve mostrar-se como «casa» onde se vive a comunhão – como luz colocada em cima do candelabro – e, pela vida e nos contactos diários, tornar-se escola que ensina por palavras, quando necessário, mas sempre pelo silêncio eloquente das obras.

O Papa S. João Paulo II não deixa dúvidas sobre as prioridades. Hoje há a ânsia de fazer coisas, de correr para um ativismo muitas vezes vazio de conteúdos. Antes de programar iniciativas concretas, é preciso promover uma espiritualidade da comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o cristão (NMI 43). Num mundo de muitas teorias e opiniões, precisamos de ser concretos e não vagar em conceitos. Daí que, pensando numa Quaresma que eduque para a presença de Cristo Ressuscitado, construída através do amor mútuo e recíproco, limito-me a apontar coordenadas que necessitam de ser descodificadas em comportamentos diários: é preciso ter sempre o olhar voltado para a vida da Santíssima Trindade, o modelo e referência mais concreta; importa sentir o irmão na fé como alguém integrado no Corpo Místico, como «um que faz parte de mim», partilhando alegrias e necessidades; importa ver no outro o positivo, acolhendo-o como «um dom para mim»; e, finalmente, importa saber «criar espaço» para o irmão, levando os fardos uns dos outros (Gal 6, 2) e rejeitando tentações de competição ou ciúme.

Com estes princípios, a comunhão acontece e Jesus resplandece. O Papa Francisco, no Documento Final do Sínodo, continua a mesma linha, afirmando que se trata de uma espiritualidade sinodal que se expressa na ascese, na humildade, na paciência e na disponibilidade para perdoar, tudo feito sem ambição ou desejo de domínio, cultivando os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, que Se aniquilou a Si próprio assumindo a condição de servo (DF 43). Este amor recíproco só é compreensível à luz de Cristo Crucificado e Abandonado, que dá a vida para que os outros a tenham em abundância. Aqui está o âmago da Páscoa, que nos convida a vivê-la em fidelidade quotidiana. 

A Quaresma deve ter este sentido abrangente para que toda a vida seja um testemunho de Cristo, que ensinou as exigências do amor e que vive quando nos amamos como Ele nos amou.


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