Quaresma: “o meu caso”
O tempo quaresmal deve ser interpretado como um verdadeiro caminho a percorrer. Neste avançar, emergem sinais que devem transformar-se em bússolas norteadoras de sentido. Surgem em qualquer lado, mas, para quem acredita, sobretudo na Palavra de Deus. Neste aspeto, os profetas do Antigo Testamento tornam-se mestres de grande atualidade. São textos antigos, mas repletos de perene novidade.
De entre eles, Isaías ocupa o primeiro lugar. Tudo quanto disse está situado num contexto histórico. O “hoje” ganharia imenso se os acolhesse.
Partilho um pormenor que me chamou a atenção. Alerta para as “brechas a reparar” e para as “casas em ruínas” a restaurar. Perante este cenário de responsabilidade, acrescenta: “não voltar as costas ao teu semelhante”. É fácil “voltar as costas”, fingir que não se vê ou não se sabe. Muitos seguem por caminhos de indiferença e alheamento. Cada um que se arranje. Haverá sempre alguém que cuide e encontre resposta. Olho para mim e fecho-me, quase sem me aperceber, e o semelhante deixa de entrar nas minhas preocupações.
Esta realidade trouxe-me à mente uma peça de teatro de José Régio, que vi e li na juventude: “O Meu Caso”. Uma sala cheia; no palco, um grupo dialoga e discute um problema urgente. Quebra-se o silêncio e surge um homem que, em alta voz, diz: isso não interessa. “O meu caso” é que é importante. Exige-se silêncio, mas a sua voz sobe. Sobe ao centro do palco, interrompe a discussão e torna-se protagonista. O que vale é o “meu caso”. Os outros problemas não interessam.
Há aqui um retrato da sociedade hodierna. Não saltamos para palcos, mas, no teatro da vida, só conta o que me interessa. Alheio-me do que me rodeia e procuro satisfazer o que considero importante para mim. Acontece em casa, no grupo de amigos, na sociedade e, quem sabe, também na Igreja.
Neste ambiente que respiramos (aceito que me contradigam), deveriam ecoar, no coração, as palavras de Isaías: “não voltar as costas ao semelhante”. Não é difícil enumerar situações. Prefiro, porém, o silêncio e convidar o leitor a ousar, neste tempo, penetrar dentro de si e verificar se não é um compromisso a revisitar diariamente. A pressão que nos envolve aponta noutro sentido.
Recordo o que o Concílio Vaticano II deixou como trave mestra do agir da Igreja nos tempos modernos. São muitos os documentos. A Constituição sobre a “Igreja no mundo contemporâneo” abre com o desafio de um olhar para as alegrias e tristezas do mundo, como algo que pertence às inquietações dos discípulos de Cristo. Sintetiza tudo num programa: “Nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no coração da Igreja e daqueles que a ela pertencem” (GS 1). Não é permitido passar ao lado dos que peregrinam connosco, ao perto ou ao longe.
Perante esta mentalidade, lembrei-me de outro escrito: agora um poema, do mesmo José Régio, “Cântico Negro”. É conhecido, mas esquece-se com facilidade:
“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,estendendo-me os braços, e segurosde que seria bom que eu os ouvisse...Só que:“Eu tenho uma loucura!Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...”“Ninguém me diga: ‘vem por aqui!’...Não sei para onde vou,Não sei para onde vou –Sei que não vou por aí!”
Os poemas não devem ser cortados. Convido, por isso, à leitura integral. Da minha parte, apenas quereria repetir: neste mundo de alheamento perante os dramas dos semelhantes, são precisos homens e mulheres que trilhem outros caminhos. Poderemos ser criticados. Contudo, acredito que “sujar” os pés e as mãos com o concreto do ser humano será sempre uma semente. Pode demorar a alterar o ritmo das coisas. Mas, se o meu espaço de vida for diferente, se “contagiar” amigos, pelo testemunho e palavra, a não “passar ao lado”, pelo menos um pequeno recanto do mundo será diferente.
Termino com mais um verso: “Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos.” Os meus “próprios passos” e não os da multidão indiferente. Passos de coragem ou, talvez, de contracorrente.
