Quaresma: A Caminho da Páscoa |
A Quaresma começou a ser celebrada, segundo alguns estudiosos, logo após o Concílio de Niceia. Desde cedo se associou ao número quarenta, de forte simbolismo bíblico, evocando diversos momentos da história de Israel. No Novo Testamento, recorda-se particularmente Jesus que, antes de iniciar a Sua vida pública, se retira para o deserto durante quarenta dias (cf. Mt 4,2; Lc 4,1-2).
A este período foi ligado o “tripé da vida espiritual judaica” (oração, jejum e esmola), que os cristãos acolheram e Santo Agostinho designou como a “lógica tripartida do batizado”. Sem negar a importância desta dinâmica, hoje há quem fale de um Ciclo Pascal com três tempos interligados e com o mesmo objetivo fundamental: a Páscoa no centro, com a sua preparação e prolongamento até ao Pentecostes.
Na verdade, o centro da vida cristã é o acontecimento da Ressurreição de Cristo e, de modo muito especial, o encontro dos Apóstolos, entre medos, resistências e dúvidas, com o mesmo Cristo que tinham seguido e com quem deveriam prosseguir caminho, assumindo a responsabilidade de O testemunhar vivo. Alguém que passou pela morte, mas para dar vida.
Sem rejeitar o espírito quaresmal tradicional, hoje, devemos dar centralidade a Cristo Ressuscitado. O Papa Francisco dizia “aos jovens e a todo o Povo de Deus”: «Cristo, nossa esperança, está vivo e é a mais formosa juventude deste mundo… Ele vive e quer-te vivo» (Christus Vivit, 1). Na mesma Exortação, sintetiza as verdades essenciais a anunciar: «Um Deus que é amor», «Cristo salva-te. Ele vive» e «O Espírito dá a vida» (cf. CV 112-133).
A Quaresma, como tempo central da liturgia, deve, por isso, estimular anualmente este encontro pessoal e comunitário e suscitar o anúncio-testemunho de um Cristo vivo e atuante na história. A Ressurreição, com a experiência do Ressuscitado, é um acontecimento histórico e uma realidade de permanente atualidade.
O Sínodo, agora na fase de implementação, recorda a centralidade desta dimensão. O Documento Final afirma logo no início: «Cada novo passo na vida da Igreja é um regresso à fonte, uma experiência renovada do encontro com o Ressuscitado que os discípulos viveram no Cenáculo na noite de Páscoa» (DF, 1). Ao longo da história, a Igreja teve de dar “novos passos”. Os tempos atuais, marcados por tantas perplexidades no mundo e nas comunidades, exigem também um novo passo, com ousadia. Continuamos o caminho, mas redescobrimos o que é verdadeiramente fundamental e inadiável.
Alguns teólogos interrogam-se sobre “os lugares de Cristo e do Seu Reino”. A pergunta de Pedro e André, «Onde moras?» (Jo 1,38), continua a interpelar. Noutra ocasião, Jesus sublinha as exigências do seguimento: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20). No Evangelho de João, não há discurso, mas um convite: «Vinde e vede». Eles foram, viram e permaneceram. Estiveram com Ele. Não se trata de um lugar físico, mas da experiência de uma vida partilhada. Aí se cumpre o que Jesus dirá mais tarde: «Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles».
É este o “lugar” onde devemos encontrar Cristo Vivo e Ressuscitado, tornando-O verdadeiramente presente na Igreja, ao lado de outras presenças. Isto acontece nas comunidades, nas famílias, nos movimentos, nas reuniões. Eis a descoberta a fazer, como verdadeiro “novo passo”. A Quaresma é tempo favorável para que tal aconteça.
O Sínodo é claro: «Somos chamados não apenas a traduzir os frutos de uma experiência espiritual pessoal em processos comunitários, mas a experimentar como a prática recíproca do mandamento novo seja lugar e forma de encontro com Deus» (DF, 44). O cristão identifica-se pela vivência do mandamento novo. Mais do que nunca, urge ser sinal de um Deus-Amor, escutar e responder aos “gritos” dos vizinhos e de todos os que fazem parte da comunidade humana a que pertencemos. Para além do exercício da caridade, é necessário viver entre nós o amor recíproco, amando-nos como Ele nos amou, dispostos a dar a vida uns pelos outros, como Ele Se aniquilou e entregou a Sua vida.
Voltarei ao tema. Acrescento apenas que o Sínodo fala da “conversão das relações” antes de todos os processos que a sinodalidade possa promover.
Podemos fazer muitas coisas na Quaresma. Contudo, centrar-nos em Cristo, tornando-O presente como Ressuscitado através do amor recíproco, é o essencial para este tempo e para o quotidiano da vida eclesial.