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Estórias à Lareira: Ti Maria Benta

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13.11.2021

- Rosa, ó Rosa?

- Sim, meu pai.

- Vai ao cabanal e traz uma gavela de vides pra acender o lume, se faz favor. E há outra coisa, antes que me olvide: depois da janta, vem até cá o Zé Júlio e a mulher. Combina com a tua irmã e arrumem esta casa, que nem um brinquinho!

- Pai, vou fazer um bolo para lhes servir.

- Tens sempre boas ideias, minha Rosinha! E de caminho, traz uma cesta de castanhas para assarmos quando eles chegarem.

- Vou chamar a Judite para me ajudar. Deixe tudo comigo, meu pai, não o vamos deixar ficar mal com as visitas.

- És um anjo, minha querida. Vai lá, e cuidem de tudo. O que seria de mim sem vós?! Um pobre desgraçado, isso é que era!

Viúvo há um bom par de anos, via nas filhas a companhia que lhe faltava desde a morte da sua tão querida esposa, Maria Amélia, a quem amara profundamente, mais do que a si mesmo. Fora um marido exemplar, amantíssimo, prestimoso e um pai que rodeava as pequenas de amor, carinho e atenções. Num ápice, viu fugir-lhe dos braços a sua amada esposa, como água que se esvai entre os dedos. Uma doença tenebrosa, que aparecera silenciosamente, corroeu-a vorazmente em poucos meses. As jovens eram a alegria da casa. Vendiam beleza e vivacidade e os rapazes da aldeia bem que lhes achavam graça, sempre que as viam passar par ir à mercearia ou acompanhavam o pai à missa do senhor Pe. Adelino. Os rapazes… ficavam a olhar de soslaio vendo-as passar com seus belos vestidos rodados, que a madrinha lhes fazia, e laços de seda nas longas tranças, encantando e dependurando qualquer coração feliz. Que raparigas! Perfumavam, de alegria, todos os sítios por onde passavam. Eram as meninas mais apreciadas em toda a aldeia. O pai e a mãe, tinham-se esmerado na educação que lhes deram e elas brilhavam em resplendor sempre que alguém lhes perguntava algo. Sabiam todas as matérias, porque eram muito interessadas em estudar e questionar. Até o senhor Pe. Adelino, com grande vaidade, lhes fazia perguntas na frente de outras pessoas. Sabia que as respostas eram divinamente bem respondidas, deixando-o em estado de levitação de puro prazer.

Jantaram, como de costume, às 19 horas, um delicioso arroz de cabidela, feito com uma galinha da capoeira que, havia uns tempos – isto das galinhas também tem o que se lhe diga -, teimava em fazer greve aos ovos.

Judite, franzia o sobrolho ao jantar; e o pai, atento a todos os pormenores da filha…:

- Se a galinha não põe ovos, para que nos há de servir? Diz-me lá, Judite?

- Paizinho: já sei que vai troçar de mim. Mas afeiçoei-me a ela!

- Ó pequena! Querem lá ver agora que não podemos comer da criação?! Então para que nos servem as galinhas, os coelhos, os patos, os perus, os porcos, o gado…

- Tem razão, paizinho, mas…

- Anda cá, pequena. – Ti Joaquim abraçava a filha e beijava-a na testa, com a mesma delicadeza com que se beija uma rosa branca. – Come lá o arrozinho que está uma maravilha! A nossa Rosa tem cá uma mão prá comida… Bem sabemos a quem saiu. A comida da vossa mãezinha… Meu Santo Cristo! Quantas saudades me moem dentro do peito…. Vamos lá, meninas, toca a comer antes que arrefeça. A comida depois de fria não presta pra........

© Diário de Trás-os-Montes


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