Burrice por osmose

Há uma ideia antiga — perigosamente plausível — segundo a qual a burrice não se aprende na escola: nasce com a pessoa, carrega-se como uma mala e o Mundo que se desvie das suas consequências no corredor dos dias.

Mas a vida moderna é fértil em desmentir máximas antigas e a burrice, hoje, não precisa de berço, porque parece desenvolver-se em todo o lado por simples osmose.

O mecanismo é simples e cruel: convivemos, todos os dias, com um número insuspeito de idiotas e os efeitos de contaminação começam por ser impercetíveis, mas com o tempo gera-se um fenómeno transferência do solvente (a burrice) para o cérebro dos indivíduos com mais soluto (inteligência).

A verdade é que o mecanismo de transferência é imparável. A princípio, resistimos. Corrigimos. Argumentamos. Citamos factos como quem lança boias ao mar. Ainda tentamos ser inteligentes — essa atividade artesanal, lenta, que dá trabalho e raramente rende aplauso.

Mas depois começa a infiltração. Não é uma transformação súbita, é mais um deslizamento. A burrice do ambiente não nos derrota por superioridade lógica, mas vence-nos por cansaço.

O idiota dominante é um candidato a alfa social que não segue regras, nem tem obrigação de coerência, ou de memória, ou de vergonha. Pode contradizer-se na mesma frase e, ainda assim, exigir respeito pela sua “opinião”. O idiota não debate, ocupa tempo e espaço, cria uma espécie de mofo espiritual que funciona como humidade num apartamento mal arejado.

E um dia acordamos e damos por nós a simplificar tudo, a aceitar tudo, a concordar com todos, por simples desistência. A desistência é o primeiro sintoma de que a burrice por osmose já nos atingiu em cheio, dissolvendo o magro soluto que nos restava no cérebro.

A inteligência começa por abdicar, mas depois vem a normalização e o que ontem nos indignava passa a ser “mero ambiente”. A ignorância deixa de ser falta de conhecimento e passa a ser estilo. A grosseria vira franqueza e a preguiça intelectual passa a realismo e sentido de oportunidade.

Nesta fase da vida, qualquer sinal exterior de conhecimento diferenciado é suspeito: “lá vem o sabichão, tem a mania que é esperto, está convencido de que é mais do que os outros”. O pior de todos os insultos é cuspirem-nos na cara esse anátema mortal: “estás velho pá e estás fodido da cabeça”.

Quando uma comunidade pune sistematicamente quem pensa, quem problematiza, quem pergunta, quem sugere alternativas… nem precisa de proibir livros, basta premiar as certezas dos burros dominantes, promovidos a condutores do povo. A burrice é como um gás, procura ocupar todo o espaço disponível.

Qual é o antídoto para a burrice por osmose? Não sei se existe remédio suficientemente profilático, mas talvez reste insistir no gesto impopular de pensar até ao fim, escolher conversas que não nos diminuam e ler coisas que não apenas confirmem o que julgamos saber.

Para quem possa, sugiro cultivar a higiene mental, abrir janelas, arejar a cabeça, sair da sala quando a burrice se torna uma religião, porque há cada vez mais ambientes em que ser inteligente exige coragem de herói e santo — e nenhuma inteligência sobrevive muito tempo a pedir desculpa por existir.


© Diário de Trás-os-Montes