O Presidente Improvável

O Presidente Improvável

Na vida de cada um de nós, existem circunstâncias que dominamos, provocamos, aproveitamos ou desaproveitamos, mas também existem outras — possivelmente a maioria — que nos surgem encadeadas num sem-fim de efeitos, de proveitos e de defeitos. Umas e outras são, no fundo, a substância do tempo que nos cabe viver.

Antes que me perca no desenhar das linhas do escrito que lhe pretendo entregar, vem isto a propósito da recente eleição do cidadão António José Seguro para Presidente de todos os portugueses, de todos os credos e de todas as cores; uma vez que, inequivocamente, somos todos iguais perante o Estado e as leis, ainda que frequentemente pareça haver uns "mais iguais do que outros".

Quando Sua Excelência — no trato protocolar obrigatório e merecido — anunciou a sua intenção de entrar na peleja advinda da democracia que devemos cultivar, tendo em vista a vitória que obteve, houve um amplo encolher de ombros, motivado pela descrença no perfil do candidato para o mister em apreço.

Arredado dos palcos em que se desenrolam as encenações próprias da atividade política há dezenas de anos, era-lhe reconhecido o percurso e considerada a sua postura de pessoa séria e ética. Todavia, era de imediato sentida e referida a sua aparente falta de chama, o seu ar amolecido — no fundo, a sua sensaboria — numa aparente falta de nervo para atitudes de rompimento.

A improbabilidade de ser eleito foi tida e havida como certa. Pareceu a muitos — supostamente especialistas na matéria, fundamentados na leitura das circunstâncias — que nem por milagre de santo influente tal coisa sucederia. Quando muito, só com a forte e efetiva interceção do poderoso Bruxo de Fafe ou da Santinha da Ladeira, dada a enorme capacidade de ambos nas coisas inexplicáveis.

Não ligou, no entanto, o candidato aos vaticínios e às análises dos especialistas e dos generalistas. Avançou sozinho, qual marinheiro perante o Adamastor. Foi criando dinâmicas e ondas; foi-se mostrando ponderado, calmo e senhor de si, utilizando as suas circunstâncias como quem sabe o quanto elas podem valer.

Os seus adversários na competição engalfinharam-se: disseram, entre eles, cobras e lagartos, utilizaram o poder das palavras ao vento, socorreram-se da força da técnica, seguiram os ditames da comunicação, bradaram e clamaram. Mas ele, não. Sabendo que as pausas também são música,soube fazer com que se escutasse o som do seu silêncio, ciente de que, em dias de desassossego, nada melhor do que prometer e mostrar calmaria.

No entanto, isto não foi tudo. No meio das circunstâncias que lhe eram alheias, uma houve que fez toda a diferença: na segunda volta do processo democrático, o volume de rejeição ao outro candidato foi tão grande que muitos eleitores, habitualmente situados fora da sua área política, lhe deram o seu apoio sob a forma de voto.

Em boa verdade, pode dizer-se que António José Seguro, no decurso da eleição que lhe foi vitoriosa, foi ele e a sua circunstância. Suficientemente culto para conhecer a frase do filósofo Ortega y Gasset, salvou-a e salvou-se, no sentido em que se sagrou vencedor da batalha pela decência e pela democracia.

Cabem-lhe os louros, entrelaçados na suprema ironia que resulta da circunstância de dever a sua vitória ao adversário — André Ventura de seu nome — camaleónico invertebrado que motivou um verdadeiro "toque a reunir" as tropas, porque era urgente e essencial salvar o mestre de todos nós: a democracia.

Eis-nos, pois, perante um Presidente improvável, com muitas probabilidades de vir a ser seguro nas suas missões e acertado nas suas funções. A ver vamos, seguramente.


© Diário de Trás-os-Montes