Ir ao Cinema

Acabei de ler que o ano de 2026, começou com 450 salas de cinema abertas, menos 112 do que no final de 2025, e tive um duplo sentimento de nostalgia e de pena. Uma amargura, mesmo, que me adveio da noção de que aquilo que está em causa, muito mais do uma maneira de se assistir a uma fita, é o desaparecimento de uma certa forma de se viver em comunidade.

Sou do tempo em que ir ao cinema era uma absoluta atitude social. Fora das cidades de Lisboa e do Porto, havia dias e horas certas. Comummente, à quarta-feira à noite para os mais afoitos e arredios do se ir dormir logo depois do jantar, pois no dia seguinte era tempo de horários a respeitar e de trabalhos a se fazerem, para o ganhar o pão nosso dia-cada-dia e, durante o fim de semana, com as suas horas de descontração, de exibição e de veraneio.

Principalmente para as sessões nestes dias de folga, vestiam-se roupas que diziam do papel, do patamar e da importância de cada qual na comunidade, onde os atavios serviam para tapar, mas também para mostrar personagens e personalidades. A disposição das cadeiras na sala de exibição marcava, delimitava e diferenciava, pois não havia preço único no bilhete de acesso.

Conforme as respetivas possibilidades económicas, assim se adquiria o bilhete para o balcão, para a plateia de primeira ou de segunda, ou para a coxia. Tentava-se chegar um pouco antes para se ser visto e para se ver, para se verificar como iam as modas e para se criticar, sabendo- se que se ia ser objeto de reparos cirúrgicos e poucos isentos. Isto, obviamente, não de modo geral e absoluto, mas inevitável para quem fosse de ligar a ditos e desditos.

No intervalo, nos escassos dez minutos de pausa, era desenrolada uma verdadeira feira de vaidades enquanto se aproveitava para se terem dois dedos de conversa com amigos e conhecidos, entre os olhares de soslaio deitados a quem a cada um interessava. Um catrapiscar de olhos entre quem já antes tinha sentido uma chama a querer acender-se, mil juras de amor na infinidade de um segundo, um sorriso mensageiro de promessas enviadas pela alma, mas também um esgar ou um frio olhar dirigido com ódios de estimação.

Lá dentro, no escurinho do cinema, o mais frequente, era acontecem viagens para longínquos lugares, nas asas das imagens em movimento que diziam de estórias de guerra com os seus heróis e com os seus vilões, de romances de amores não vividos, mas sentidos como se entre o écran e os lugares na sala, não houvesse lugar nem distancia.

Quando viajar era para muito poucos, ir ao cinema era também, uma oportunidade para se conhecer e para se saber de mais mundo. Muitas ruas das cidades americanas, principalmente, puderem por essa via serem conhecidas como se fossem de um bairro da nossa cidade, muitas paisagens passaram a ser coisas de ao pé de nós, e muitos atores e atrizes passaram a ser quase pessoas da família.

Mas, na penumbra, depois de apagadas as luzes, por vezes, também ali se ficava, A intimidade gerada podia ser passaporte utilizado na oportunidade conquistada, merecida e prometida, depois de ter sido consentida. Levar a namorada efetiva ou ainda a o ser, era o primeiro grande passo para o compromisso que seria para durar enquanto o pavio ardesse e enquanto houvesse caminho para andar. Não faltou quem, vencidos os terríveis temores, se atreveu a dar um primeiro beijo que nem num canto de jardim, e quem tenha tomado a suprema ousadia do inicial e inteiro dar a mão, antes do inexcedível pousar a cabeça no ombro prometido.

Claro que ir ao cinema ainda é hábito. Mas já não é a mesma coisa. Não posso dizer que é melhor ou que é pior, mas é diferente. Mais não seja, porque o tempo já não é de tão completa inocência de tanta pousa que passa e se ultrapassa. Com os olhares fixos nos ecrãs, com os sentimentos revoltos, com o coração a dobrar de aceleração, ainda se dão os primeiros passos nos namoros sempre intensos, mas, a oportunidade, perdeu a exclusividade.

As tecnologias deste tempo que passa quase sem trovas, tornaram o mundo muito mais pequeno. Tão exíguo, que todo ele cabe na palma da nossa mão apesar de ser imediato e sem barreiras. Os muros físicos que o limitam, passaram a ser as paredes da casa feita sala do trono do imperador que individualmente nos sentimos mais por convencimento do que por real merecimento.

Não faltam fitas nem cavaleiros da triste figura, há muitos heróis e não menos vilões, nem romances a ver e a viver, mas o cinema como forma de espairecer, está a morrer. Todo o mundo que enquanto arte o faz nascer, entra-nos em casa, mas não sai de dentro de nós, porque não nos apercebemos que há um infinito a descobrir mesmo no virar da esquina da nossa rua, logo a seguir aos limites do nosso bairro.

Sem demora, pois pode-nos faltar o argumento, com o consequente fechar do pano, ainda sem ter aparecido o THE END.


© Diário de Trás-os-Montes