25 de Abril com cravo vermelho ao peito.

25 de Abril com cravo vermelho ao peito.

Disse José Barata Moura:

“Cravo vermelho ao peito

a certos filhos da mãe.”

Este verso usa o cravo vermelho, como símbolo da Revolução de Abril, para denunciar a hipocrisia de quem ostenta símbolos de liberdade e justiça sem viver esses valores. Há quem use o cravo ao peito porque “fica bem”, como adorno, estatuto ou conveniência, não por convicção.

A expressão final, “certos filhos da mãe”, reforça o sarcasmo popular e mordaz. Não é só provocação, é um ataque aos oportunistas que se apropriam das causas sem as vivenciar.

Continua atual. Há sempre quem vista símbolos nobres para esconder práticas mesquinhas e oportunistas.

O 25 de Abril é maior que cerimonias, cravos ao peito, discursos bonitos e palavras cheias de liberdade. A verdadeira homenagem a Abril não se faz um dia por ano. Faz-se todos os dias: nas decisões, na forma como se exerce o poder e no respeito por quem pensa diferente.

Há uma contradição evidente quando se invoca Abril em cerimónias públicas, mas no quotidiano se governa com arrogância, silêncio imposto, favorecimentos e falta de transparência. Não há espírito de Abril onde a crítica incomoda, onde a participação dos cidadãos é vista como ameaça e onde o poder serve mais quem manda do que quem foi eleito para servir.

O 25 de Abril não foi feito para decorar agendas institucionais. Foi conquistado para garantir direitos, dar voz ao povo, exigir responsabilidade e lembrar que nenhum cargo está acima dos valores democráticos.

Também ao poder autárquico importa recordar que liderar não é mandar sem ouvir, não é confundir maioria com razão absoluta, nem usar a autoridade para calar, condicionar ou dividir.

Celebrar Abril exige tolerância para a diferença.

Celebrar Abril exige conviver com quem pensa diferente.

Celebrar Abril exige respeitar as minorias.

Celebrar Abril exige conseguir olhar o outro com os sapatos dele.

Celebrar Abril exige solidariedade.

Celebrar Abril exige coerência no confronto aberto de ideias.

Quem fala de liberdade deve praticá-la.

Quem fala de democracia deve respeitá-la.

Quem fala de Abril deve honrá-lo todos os dias.

O 25 de Abril não pode ser uma data anual. Tem de ser a conquista de 1974 reiterada, afirmada e sempre evocada.

Viva o 25 de Abril e a eternização das suas conquistas.

Baptista Jerónimo, de 24 abril de 2026


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